
A Complem decidiu reagir.
Em nota oficial divulgada nesta quinta-feira (3), o Conselho de Administração afirma que são “boatos” e “interpretações equivocadas” as informações segundo as quais a cooperativa enfrentaria dificuldades financeiras.
A resposta é contundente. Mas existe um problema igualmente contundente:
os R$ 290 milhões em empréstimos e financiamentos não são boato. Estão no balanço da própria Complem.
Foi desse documento — e não de redes sociais — que partiram as reportagens.
Ao final de 2025, as demonstrações financeiras registravam aproximadamente R$ 290,2 milhões em empréstimos e financiamentos, sendo cerca de R$ 187 milhões no curto prazo.
Também registravam aproximadamente R$ 33,7 milhões em despesas com juros, diante de R$ 12,19 milhões em sobras líquidas.
A nota não afirma que esses números estejam errados.
Também não explica por que quase R$ 187 milhões estavam classificados no curto prazo.
Em vez disso, muda o período da comparação.
A Complem informa que terminou o primeiro semestre de 2026 com aproximadamente R$ 90 milhões em caixa e que reduziu sua dívida líquida em R$ 44 milhões nos últimos seis meses.
É uma informação relevante — e positiva, se confirmada documentalmente.
Mas ela não apaga o balanço de 31 de dezembro de 2025.
E cria uma pergunta muito simples: onde está o balancete de junho de 2026 que demonstra essa nova fotografia financeira?
Quanto era a dívida bruta em junho? Quanto foi efetivamente amortizado? Quais financiamentos foram pagos? Os R$ 90 milhões são caixa e equivalentes disponíveis ou incluem aplicações vinculadas? De onde vieram os recursos utilizados para reduzir a dívida líquida?
Há outra afirmação que merece lupa.
Segundo a nota, a parceria com o Grupo Piracanjuba “não possui qualquer relação com as finanças da cooperativa”.
Qualquer relação?
A Complem está transferindo à Piracanjuba a operação industrial de uma atividade central do seu negócio. Há ativos industriais, trabalhadores, produção e comercialização envolvidos.
Então é legítimo perguntar: qual o valor econômico dessa operação?
Até agora, continuam sem divulgação pública o valor do negócio, prazo, remuneração da Complem e condições financeiras completas do contrato.
Chamar questionamentos de “boatos” não responde nenhuma dessas perguntas.
A cooperativa tem todo o direito de afirmar que não enfrenta crise financeira.
Mas a reportagem também tem o dever de confrontar essa afirmação com aquilo que a própria cooperativa publicou.
E aqui está a diferença fundamental:
opinião pode ser contestada. Documento precisa ser explicado.

Se os R$ 290 milhões não representam preocupação, explique-se por quê.
Se os R$ 187 milhões no curto prazo não pressionavam o caixa, demonstre-se tecnicamente.
Se a parceria com a Piracanjuba não tem “qualquer relação” com as finanças, divulguem-se as condições econômicas que sustentam essa afirmação.
Porque até agora a nota contesta a interpretação.
O balanço que originou as perguntas, não.
E ele foi publicado pela própria Complem.

