quinta-feira, 3 de setembro de 2026

COMPLEM DIZ QUE NÃO HÁ CRISE — MAS NÃO CONTESTA OS R$ 290 MILHÕES EM EMPRÉSTIMOS APONTADOS NO PRÓPRIO BALANÇO

NOTA SOB ANÁLISE | Cooperativa chama de “boatos” informações sobre dificuldades financeiras, anuncia R$ 90 milhões em caixa e redução de R$ 44 milhões da dívida líquida em 2026. Mas não desmente os números que provocaram os questionamentos: eles estão nas demonstrações financeiras publicadas pela própria Complem.

A Complem decidiu reagir.

Em nota oficial divulgada nesta quinta-feira (3), o Conselho de Administração afirma que são “boatos” e “interpretações equivocadas” as informações segundo as quais a cooperativa enfrentaria dificuldades financeiras.

A resposta é contundente. Mas existe um problema igualmente contundente:

os R$ 290 milhões em empréstimos e financiamentos não são boato. Estão no balanço da própria Complem.

Foi desse documento — e não de redes sociais — que partiram as reportagens.

Ao final de 2025, as demonstrações financeiras registravam aproximadamente R$ 290,2 milhões em empréstimos e financiamentos, sendo cerca de R$ 187 milhões no curto prazo.

Também registravam aproximadamente R$ 33,7 milhões em despesas com juros, diante de R$ 12,19 milhões em sobras líquidas.

A nota não afirma que esses números estejam errados.

Também não explica por que quase R$ 187 milhões estavam classificados no curto prazo.

Em vez disso, muda o período da comparação.

A Complem informa que terminou o primeiro semestre de 2026 com aproximadamente R$ 90 milhões em caixa e que reduziu sua dívida líquida em R$ 44 milhões nos últimos seis meses.

É uma informação relevante — e positiva, se confirmada documentalmente.

Mas ela não apaga o balanço de 31 de dezembro de 2025.

E cria uma pergunta muito simples: onde está o balancete de junho de 2026 que demonstra essa nova fotografia financeira?

Quanto era a dívida bruta em junho? Quanto foi efetivamente amortizado? Quais financiamentos foram pagos? Os R$ 90 milhões são caixa e equivalentes disponíveis ou incluem aplicações vinculadas? De onde vieram os recursos utilizados para reduzir a dívida líquida?

Há outra afirmação que merece lupa.

Segundo a nota, a parceria com o Grupo Piracanjuba “não possui qualquer relação com as finanças da cooperativa”.

Qualquer relação?

A Complem está transferindo à Piracanjuba a operação industrial de uma atividade central do seu negócio. Há ativos industriais, trabalhadores, produção e comercialização envolvidos.

Então é legítimo perguntar: qual o valor econômico dessa operação?

Até agora, continuam sem divulgação pública o valor do negócio, prazo, remuneração da Complem e condições financeiras completas do contrato.

Chamar questionamentos de “boatos” não responde nenhuma dessas perguntas.

A cooperativa tem todo o direito de afirmar que não enfrenta crise financeira.

Mas a reportagem também tem o dever de confrontar essa afirmação com aquilo que a própria cooperativa publicou.

E aqui está a diferença fundamental:

opinião pode ser contestada. Documento precisa ser explicado.

Se a situação financeira melhorou radicalmente em 2026, ótimo. Publique-se o balancete.

Se os R$ 290 milhões não representam preocupação, explique-se por quê.

Se os R$ 187 milhões no curto prazo não pressionavam o caixa, demonstre-se tecnicamente.

Se a parceria com a Piracanjuba não tem “qualquer relação” com as finanças, divulguem-se as condições econômicas que sustentam essa afirmação.

Porque até agora a nota contesta a interpretação.

O balanço que originou as perguntas, não.

E ele foi publicado pela própria Complem.


A ÁRVORE SOCIETÁRIA DA 7K: O ELO DOCUMENTAL ENTRE ALESSANDRO, ANA GAMING E A INVESTIGAÇÃO DA NARCO BET

RASTRO SOCIETÁRIO | A estrutura empresarial analisada pela reportagem revela uma sequência de participações que conecta Alessandro à controladora da Ana Gaming, empresa ligada à 7K. O caminho passa por AYA Participações e Ana Administradora e abre uma questão central: quem, afinal, estava por trás da estrutura societária e econômica das empresas relacionadas ao negócio?

Quando se olha apenas para a superfície, os nomes parecem espalhados entre diferentes empresas.

Quando se monta a árvore societária, a fotografia muda.

A investigação documental realizada pela reportagem identificou uma cadeia empresarial que merece atenção justamente porque permite sair do terreno das especulações e entrar no terreno dos registros societários.

O caminho identificado é:

Alessandro → AYA Participações → Ana Administradora → Ana Gaming → 7K.

Isso não significa, por si só, participação em qualquer atividade criminosa.

Mas significa algo objetivo e jornalisticamente relevante: existe uma cadeia societária que precisa ser explicada.

O CAMINHO ATÉ A 7K

O ponto importante não é procurar apenas quem aparece diretamente no quadro societário da empresa localizada na ponta.

Estruturas empresariais podem ser formadas por sucessivas pessoas jurídicas.

Uma empresa participa de outra, que participa de uma terceira.

É justamente por isso que a análise precisa avançar até chegar às pessoas físicas existentes atrás dessas sociedades.

No material levantado pela reportagem, Alessandro aparece relacionado à AYA Participações.

A partir daí surge o elo seguinte: a AYA participa da estrutura da Ana Administradora.

A Ana Administradora, por sua vez, conduz a investigação societária até a Ana Gaming.

E é a Ana Gaming que aparece no caminho empresarial relacionado à 7K.

Portanto, Alessandro pode não precisar aparecer nominalmente como sócio direto da 7K para existir uma ligação societária indireta entre ele e a estrutura empresarial que chega até a operação.

Esse é precisamente o ponto que os documentos tornam relevante.

CACTUS E RNGX AMPLIAM A TEIA

A árvore não termina aí.

Na reconstrução societária também aparecem Cactus e RNGX, empresas que precisam ser analisadas dentro da evolução histórica da estrutura.

A RNGX aparece integrada à órbita societária da Ana Administradora.

A Cactus, por sua vez, surge em registros históricos relacionados a essa estrutura.

Quando alterações contratuais são colocadas cronologicamente lado a lado, a pergunta deixa de ser apenas quem é sócio hoje.

Passa a ser:

quem entrou, quem saiu, quando entrou, quando saiu e o que estava acontecendo com as empresas naquele momento?

Esse detalhe é fundamental.

Uma fotografia atual do CNPJ pode esconder justamente aquilo que uma investigação societária procura revelar: a trajetória da empresa.

E YUDI E MANUEL?

Outros dois nomes aparecem no entorno empresarial analisado: Yudi e Manuel.

A reportagem encontrou relações empresariais deles com Alessandro em outras sociedades.

Mas aqui existe uma fronteira que precisa ser respeitada.

Até o estágio atual da documentação analisada, não há base suficiente para afirmar que Yudi e Manuel sejam sócios diretos da 7K ou que integrem diretamente a mesma cadeia societária que conduz da Ana Administradora à Ana Gaming e à 7K.

Isso não elimina a relevância das sociedades compartilhadas.

Ao contrário.

Transforma essas relações em uma nova frente de investigação.

A pergunta correta não é acusá-los.

É descobrir documentalmente se essas sociedades possuem alguma ligação financeira, administrativa, operacional ou patrimonial com as empresas da árvore da 7K.

A INVESTIGAÇÃO DA “NARCO BET” MUDA O PESO DA ÁRVORE

Toda essa engenharia societária ganha outra dimensão diante da investigação conhecida como “Narco Bet”.

Uma investigação criminal dessa natureza torna especialmente relevante identificar não apenas operadores aparentes de determinado negócio, mas também beneficiários econômicos, administradores, investidores e estruturas de participação existentes atrás das pessoas jurídicas.

E é justamente aí que a árvore societária ganha importância.

Ela não prova crime.

Mas mostra caminhos que precisam ser investigados.

Se Alessandro está documentalmente conectado, através de sucessivas participações empresariais, à estrutura que chega à Ana Gaming e à 7K, algumas perguntas tornam-se inevitáveis:

Qual era sua participação econômica indireta?

Tinha poder de decisão?

Recebia dividendos ou qualquer outra distribuição?

Participou de aportes?

Existem transferências financeiras entre essas empresas?

Quem são os beneficiários finais da estrutura?

E, principalmente:

essas relações já foram identificadas e analisadas pelos investigadores da Narco Bet?

A diferença entre especulação e investigação está justamente aí.

Não basta olhar a fachada de uma empresa.

É preciso seguir os CNPJs.

Depois, seguir as alterações contratuais.

Depois, seguir os sócios.

E, finalmente, seguir o dinheiro.

Porque empresas podem mudar de nome, administradores podem entrar e sair e participações podem ser transferidas.

O histórico societário, entretanto, deixa rastros.

E a árvore reconstruída pela reportagem mostra que ainda existem muitos deles a serem explicados.

O próximo avanço mais forte nessa apuração é montar uma cronologia societária, com CNPJ, percentual de participação, data de entrada e saída de cada empresa/pessoa e cada alteração contratual. Isso permite confrontar a movimentação societária com as datas relevantes da investigação Narco Bet.


ELEIÇÃO TRAVADA, NEGÓCIO ACELERADO: POR QUE A PRESSA DA COMPLEM COM A PIRACANJUBA?

GOVERNANÇA SOB QUESTIONAMENTO | Sérgio Penido permanece no comando por decisão judicial que prorrogou mandato até eleição e posse dos novos conselhos. Enquanto disputa eleitoral continua sem desfecho, gestão negocia desde 2025 uma das maiores mudanças da história da cooperativa. Agora, a previsão divulgada é iniciar a nova operação em até dois meses.

Existe uma pergunta que passa a ocupar o centro da negociação entre Complem e Grupo Piracanjuba:

por que uma operação dessa dimensão precisa ser concluída antes da realização da eleição da cooperativa?

A questão ganha peso diante da situação excepcional da atual administração.

Sérgio Penido foi eleito em 2019. Uma nova eleição deveria ter ocorrido em 2022, mas o processo eleitoral acabou judicializado.

A própria Complem reconheceu publicamente, em nota divulgada em 2024, que existe decisão do Juízo da Comarca de Morrinhos prorrogando os mandatos dos Conselhos de Administração e Fiscal até a eleição e posse dos novos conselhos.

Portanto, a atual direção permanece administrando a cooperativa amparada por uma decisão judicial enquanto o conflito eleitoral não é definitivamente solucionado.

E é justamente durante esse período extraordinário que começou a negociação com a Piracanjuba.

Segundo o próprio presidente Sérgio Penido, “as discussões sobre o projeto tiveram início em 2025”.

Agora o acordo foi anunciado.

A Piracanjuba deverá assumir exclusivamente a operação industrial dos lácteos, industrializar e comercializar os produtos Compleite, incorporar aproximadamente 200 trabalhadores e receber o leite captado pela cooperativa.

A unidade começaria processando aproximadamente 300 mil litros diariamente e poderá dobrar essa capacidade.

Não se trata, portanto, de uma decisão administrativa corriqueira.

É uma transformação capaz de redefinir por anos o modelo de negócios de uma cooperativa construída historicamente em torno da industrialização do leite.

POR QUE NÃO ESPERAR A ELEIÇÃO?

É justamente aqui que surge a questão que precisa ser esclarecida aos cooperados.

Se existe uma eleição pendente e o atual mandato foi prorrogado judicialmente até que novos dirigentes sejam eleitos e empossados, por que uma decisão estrutural dessa magnitude precisa ser tomada pela administração atual?

Mais ainda:

existe alguma razão para que o negócio seja concluído antes que os cooperados tenham novamente a oportunidade de escolher quem comandará a Complem?

A pergunta ganha relevância porque a própria divulgação institucional da parceria informa que a expectativa é obter autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e começar a nova operação em, no máximo, dois meses.

Do outro lado existe uma eleição judicializada há anos.

São dois relógios correndo simultaneamente.

O relógio eleitoral praticamente parou.

O relógio da operação com a Piracanjuba, ao contrário, está acelerado.

QUEM DEVE TOMAR ESSA DECISÃO?

A discussão não é apenas sobre a existência de poderes formais da atual administração.

A questão é também de legitimidade cooperativa e governança.

Uma administração mantida no cargo por decisão judicial até a eleição dos sucessores deve comprometer uma atividade estratégica da cooperativa antes que essa eleição aconteça?

Ou uma decisão dessa magnitude deveria ser submetida a uma administração recém-eleita — ou diretamente aos próprios cooperados?

Outra pergunta é inevitável:

o resultado da próxima eleição poderia colocar em risco, modificar ou até impedir o negócio com a Piracanjuba?

Se a resposta for não, por que não aguardar?

Se a resposta for sim, torna-se ainda mais importante saber por que existe pressa.

O QUE A JUSTIÇA PRECISA ESCLARECER

Também é necessário saber exatamente onde estão hoje os processos que impedem a normalização eleitoral da Complem.

Em 2024, a cooperativa informou existirem três processos relacionados ao pleito, todos então com sentença em primeiro grau.

Passados mais de dois anos daquela manifestação, os cooperados precisam saber:

o que ainda impede a eleição?

Existe recurso pendente?

Existe decisão determinando quando ela deverá ocorrer?

Quem está recorrendo?

Há algum impedimento jurídico atual para convocação de um novo pleito?

E, principalmente:

há possibilidade de a eleição acontecer antes da efetiva transferência da operação industrial para a Piracanjuba?

O CADE TAMBÉM PRECISA CONHECER O CENÁRIO

O CADE não é responsável por decidir quem deve administrar a Complem.

Sua função é concorrencial.

Mas existe um dado institucional que não pode ser ignorado na compreensão da operação submetida ao órgão: a administração que negociou o negócio desde 2025 exerce o mandato por força de uma prorrogação judicial decorrente de uma eleição ainda litigiosa.

A transação, por sua vez, ainda depende da autorização do CADE. Até a decisão definitiva, Complem e Piracanjuba afirmam que permanecerão independentes.

Por isso, a cronologia agora se torna fundamental.

2019: Sérgio Penido é eleito.

2022: deveria ocorrer nova eleição.

2022–2026: o conflito eleitoral permanece judicializado e os mandatos são prorrogados até eleição e posse dos sucessores.

2025: começam as negociações com a Piracanjuba.

2026: o negócio é anunciado e surge a previsão de iniciar a nova operação em até dois meses.

Não se pode afirmar, sem provas, que exista uma corrida deliberada para consumar o negócio antes da eleição.

Mas diante dessa sequência de acontecimentos, existe uma pergunta que a direção da Complem precisa responder objetivamente:

por que concluir agora uma decisão que poderá comprometer o futuro industrial da cooperativa por anos, enquanto os próprios cooperados continuam esperando desde 2022 para escolher quem vai comandá-la?

Talvez a questão mais importante sobre o acordo Complem–Piracanjuba já não seja apenas quanto ele vale.

É outra:

quem deveria ter legitimidade para decidir sobre ele?