segunda-feira, 5 de outubro de 2026

DA FARDA À ALEGO: QUEM É E O QUE REPRESENTA A ELEIÇÃO DO CORONEL EDSON RAIADO

ELEIÇÕES 2026 | Com 32.717 votos, coronel da Polícia Militar transforma a projeção conquistada na segurança pública em seu primeiro mandato eletivo. Depois da tentativa frustrada de chegar à Câmara Federal em 2022, Raiado conquista uma cadeira na Assembleia Legislativa e passa a enfrentar um desafio completamente diferente: transformar experiência operacional, popularidade e discurso em atuação parlamentar.

A eleição do Coronel Edson Raiado para deputado estadual de Goiás não pode ser analisada apenas pelos 32.717 votos que lhe garantiram uma cadeira na Assembleia Legislativa. O resultado das urnas encerra uma etapa iniciada anos antes de sua candidatura e abre outra, muito mais complexa. Raiado chega à política carregando uma trajetória construída essencialmente dentro da segurança pública, ambiente no qual conquistou projeção e reconhecimento, e agora terá de demonstrar como essa experiência será transportada para uma instituição em que comando e hierarquia dão lugar à articulação, ao debate, à fiscalização e à necessidade permanente de construir maioria.

Edson Raiado não nasceu politicamente dentro de um gabinete. Seu nome chegou ao eleitor principalmente pela atuação como policial militar, pelas operações das quais participou e pelo exercício de funções de comando. A grande exposição pública veio especialmente a partir da força-tarefa montada para localizar Lázaro Barbosa, em 2021, episódio que ganhou repercussão nacional e colocou vários integrantes das forças de segurança de Goiás sob intensa exposição. Raiado posteriormente também esteve à frente do Comando de Operações de Divisas (COD), uma das unidades especializadas da Polícia Militar goiana.

Essa projeção, entretanto, não foi suficiente para elegê-lo na primeira tentativa. Em 2022, Raiado disputou uma cadeira de deputado federal pelo Avante, recebeu 19.811 votos e ficou fora da Câmara dos Deputados. Quatro anos depois, retornou às urnas em uma estratégia diferente: mudou de partido, deixou a disputa federal e concentrou seu projeto político na Assembleia Legislativa. Pelo PSD, chegou aos 32.717 votos e conquistou seu primeiro mandato eletivo.

A comparação entre as duas eleições ajuda a compreender a dimensão política do resultado de 2026. Raiado não simplesmente apareceu em uma eleição favorecido por uma exposição circunstancial. Depois da derrota de 2022, permaneceu politicamente ativo, reorganizou o projeto eleitoral e conseguiu ampliar sua votação em quase 13 mil votos. Mais importante do que o crescimento numérico foi transformar esses votos em uma cadeira efetiva no Parlamento estadual.

A partir daqui, porém, começa uma história completamente diferente daquela que construiu usando farda. A experiência policial pode ter sido decisiva para formar sua imagem pública, mas não será suficiente para definir seu desempenho na Assembleia. O policial trabalha dentro de uma estrutura verticalizada, baseada em hierarquia, disciplina e comando. O deputado atua em um ambiente no qual praticamente nenhuma decisão relevante depende exclusivamente dele. Para aprovar projetos, alterar leis, influenciar o orçamento ou exercer protagonismo político, será necessário negociar, convencer, construir alianças e eventualmente enfrentar interesses dentro e fora do próprio partido.

É exatamente essa transição que torna a eleição de Raiado politicamente interessante. Durante boa parte da carreira, ele esteve na ponta de políticas públicas definidas por governos e aprovadas pelos parlamentos. Conheceu por dentro as limitações materiais, operacionais e humanas da segurança pública. Agora estará no lugar onde parte das decisões que atingem policiais e demais servidores é tomada. Salários, estrutura das corporações, investimentos em tecnologia, equipamentos, orçamento, legislação e fiscalização das ações do Executivo passarão diretamente pelo ambiente político em que ele estará inserido.

Essa circunstância também cria uma responsabilidade adicional. Um parlamentar que construiu sua identidade pública dentro da segurança não poderá tratar o assunto apenas como bandeira eleitoral. A partir da posse, será possível confrontar sua experiência acumulada durante anos na Polícia Militar com projetos efetivamente apresentados, emendas destinadas à área, posicionamentos em votações e fiscalização sobre a aplicação dos recursos públicos. O eleitor que conheceu Raiado pela atividade operacional poderá conhecer, a partir de fevereiro, o Raiado legislador.

A eleição também muda completamente o grau de exposição de seus atos. Como deputado estadual, haverá um registro permanente de sua atividade política. Será possível saber quais projetos apresentou, como votou em matérias importantes, quais municípios receberam suas emendas, quem ocupará seu gabinete, quais grupos políticos estarão ao seu lado e qual será sua relação com o Governo de Goiás. É nesse conjunto de decisões, e não apenas na popularidade acumulada antes da eleição, que seu mandato poderá ser compreendido ao longo dos próximos quatro anos.

Outro aspecto importante será observar até que ponto Raiado conseguirá construir uma atuação que ultrapasse a própria segurança pública. Um deputado estadual não legisla apenas para policiais ou sobre criminalidade. Saúde, educação, infraestrutura, orçamento, desenvolvimento regional, funcionalismo público, meio ambiente e dezenas de outras questões inevitavelmente chegarão ao painel da Assembleia. A transformação de uma liderança setorial em um parlamentar com atuação estadual será, portanto, uma das questões a serem observadas durante a próxima legislatura.

Os 32.717 votos recebidos neste domingo representam, nesse sentido, mais do que a conquista de uma cadeira. Eles deram a Edson Raiado a oportunidade que não conseguiu obter em 2022: deixar de ser candidato e passar efetivamente à condição de representante eleito. A partir de agora, campanha e mandato precisam ser separados. Promessas feitas diante do eleitor começam a adquirir possibilidade de cobrança objetiva, e a imagem construída ao longo da carreira policial passa a conviver com a responsabilidade decorrente do exercício de um mandato público.

O Blog do Cleuber Carlos acompanhará essa nova trajetória exatamente por esse ângulo. Não se trata de antecipar julgamento sobre o mandato que sequer começou, mas tampouco de conceder cheque em branco a quem recebeu das urnas o poder de representar milhares de goianos. Projetos, votos, emendas, composição de gabinete, utilização dos recursos públicos, posicionamentos e compromissos assumidos durante a campanha formarão, a partir de fevereiro de 2027, os elementos concretos para avaliar sua atuação parlamentar.

A eleição já respondeu a primeira pergunta. Coronel Edson Raiado conseguiu transformar o reconhecimento conquistado durante sua trajetória na segurança pública em força eleitoral suficiente para chegar à Assembleia Legislativa de Goiás. A segunda pergunta levará quatro anos para ser respondida: que deputado será Edson Raiado?

A farda construiu uma parte importante de sua história pública e as urnas abriram a porta da Alego. A partir de agora, entretanto, sua trajetória será escrita em outro ambiente, onde operações dão lugar a projetos, ordens dão lugar a votos e popularidade deixa de ser suficiente. É no exercício diário do mandato que os 32.717 votos recebidos nas urnas terão de ser transformados em representação política.


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