
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu não participar do debate presidencial da TV Globo desta quinta-feira (1º), o último antes do primeiro turno, marcado para domingo (4). Em vez do confronto com os adversários, o presidente participará de uma entrevista no Flow Podcast. A ausência foi comunicada à Globo nesta quarta-feira (30). (Folha de S.Paulo)
A decisão revela um cálculo eleitoral de risco e benefício na reta final da campanha.
O QUE LULA GANHA
O primeiro ganho potencial é reduzir sua exposição ao risco.
Segundo relatos publicados pela imprensa, aliados de Lula avaliam que, no formato do debate, o presidente poderia se transformar no principal alvo dos adversários. Estão confirmados Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo). (Folha de S.Paulo)
Ao ficar fora, Lula evita entrar em um ambiente de confronto a apenas três dias da eleição, no qual uma frase mal colocada, uma resposta ruim ou um momento de tensão poderia ganhar enorme repercussão nas redes sociais. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontaram justamente a redução desse risco como uma das possíveis razões estratégicas da ausência. (Terra)
Existe ainda outra vantagem: Lula troca um ambiente que não controla por outro no qual terá mais espaço para desenvolver sua própria mensagem.
No Flow, poderá falar por mais tempo, apresentar argumentos e propostas sem precisar dividir cada intervenção entre ataques, réplicas e tréplicas. É uma estratégia que sua campanha já utilizou neste primeiro turno: quando ocorreu o debate da Band, Lula concedeu entrevista à Record. (Exame)
O QUE LULA PODE PERDER
A ausência, entretanto, também produz riscos.
O principal deles é deixar o palco da maior emissora do país para seus adversários justamente na reta final da campanha.
E existe um detalhe particularmente importante: Lula poderá continuar presente no debate — mesmo estando ausente fisicamente.
As regras divulgadas pela Globo permitem que candidatos façam perguntas destinadas a um adversário ausente. Além disso, o lugar reservado ao candidato que não comparecer poderá aparecer vazio e identificado. (Folha de S.Paulo)
Ou seja: Lula pode ser criticado durante o programa sem estar no estúdio para responder imediatamente.
Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Cury terão a oportunidade de apresentar críticas ao governo e à candidatura petista diante de uma audiência nacional. A campanha de Lula aposta que a ausência transfira parte da pressão para Flávio Bolsonaro, avaliação relatada por aliados à imprensa. (Folha de S.Paulo)
Há ainda um segundo risco: a construção da narrativa da ausência.
Os adversários poderão explorar politicamente a decisão e questionar por que um presidente que busca a reeleição não participou dos debates do primeiro turno. Segundo a Folha, Lula não compareceu aos encontros anteriores da campanha, embora tenha participado de entrevistas e sabatinas. (Folha de S.Paulo)
UMA APOSTA DE CONTROLE DE RISCO
A decisão de Lula pode ser entendida, portanto, como uma escolha entre dois tipos de exposição.
Comparecer significaria enfrentar adversários diretamente, responder às críticas e ocupar o palco do principal debate do primeiro turno — assumindo também o risco de ataques simultâneos e erros com repercussão imediata.
Não comparecer reduz esse risco e permite ao presidente escolher outro ambiente para falar ao eleitor, mas deixa seus adversários livres para atacá-lo durante horas em rede nacional.
É uma estratégia defensiva de campanha cuja consequência eleitoral dependerá de fatores como a audiência do debate, a repercussão dos cortes nas redes sociais e a capacidade do Flow de oferecer a Lula uma audiência alternativa relevante.
A resposta sobre o resultado dessa escolha começará a aparecer não apenas durante o debate desta quinta-feira, mas principalmente na repercussão das horas seguintes — justamente às vésperas da votação.
O ponto jornalisticamente mais forte, para mim, é o púlpito vazio e a possibilidade de perguntas dirigidas a Lula mesmo ausente: isso materializa muito bem o risco que ele assume.
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