quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ELEIÇÃO TRAVADA, NEGÓCIO ACELERADO: POR QUE A PRESSA DA COMPLEM COM A PIRACANJUBA?

GOVERNANÇA SOB QUESTIONAMENTO | Sérgio Penido permanece no comando por decisão judicial que prorrogou mandato até eleição e posse dos novos conselhos. Enquanto disputa eleitoral continua sem desfecho, gestão negocia desde 2025 uma das maiores mudanças da história da cooperativa. Agora, a previsão divulgada é iniciar a nova operação em até dois meses.

Existe uma pergunta que passa a ocupar o centro da negociação entre Complem e Grupo Piracanjuba:

por que uma operação dessa dimensão precisa ser concluída antes da realização da eleição da cooperativa?

A questão ganha peso diante da situação excepcional da atual administração.

Sérgio Penido foi eleito em 2019. Uma nova eleição deveria ter ocorrido em 2022, mas o processo eleitoral acabou judicializado.

A própria Complem reconheceu publicamente, em nota divulgada em 2024, que existe decisão do Juízo da Comarca de Morrinhos prorrogando os mandatos dos Conselhos de Administração e Fiscal até a eleição e posse dos novos conselhos.

Portanto, a atual direção permanece administrando a cooperativa amparada por uma decisão judicial enquanto o conflito eleitoral não é definitivamente solucionado.

E é justamente durante esse período extraordinário que começou a negociação com a Piracanjuba.

Segundo o próprio presidente Sérgio Penido, “as discussões sobre o projeto tiveram início em 2025”.

Agora o acordo foi anunciado.

A Piracanjuba deverá assumir exclusivamente a operação industrial dos lácteos, industrializar e comercializar os produtos Compleite, incorporar aproximadamente 200 trabalhadores e receber o leite captado pela cooperativa.

A unidade começaria processando aproximadamente 300 mil litros diariamente e poderá dobrar essa capacidade.

Não se trata, portanto, de uma decisão administrativa corriqueira.

É uma transformação capaz de redefinir por anos o modelo de negócios de uma cooperativa construída historicamente em torno da industrialização do leite.

POR QUE NÃO ESPERAR A ELEIÇÃO?

É justamente aqui que surge a questão que precisa ser esclarecida aos cooperados.

Se existe uma eleição pendente e o atual mandato foi prorrogado judicialmente até que novos dirigentes sejam eleitos e empossados, por que uma decisão estrutural dessa magnitude precisa ser tomada pela administração atual?

Mais ainda:

existe alguma razão para que o negócio seja concluído antes que os cooperados tenham novamente a oportunidade de escolher quem comandará a Complem?

A pergunta ganha relevância porque a própria divulgação institucional da parceria informa que a expectativa é obter autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e começar a nova operação em, no máximo, dois meses.

Do outro lado existe uma eleição judicializada há anos.

São dois relógios correndo simultaneamente.

O relógio eleitoral praticamente parou.

O relógio da operação com a Piracanjuba, ao contrário, está acelerado.

QUEM DEVE TOMAR ESSA DECISÃO?

A discussão não é apenas sobre a existência de poderes formais da atual administração.

A questão é também de legitimidade cooperativa e governança.

Uma administração mantida no cargo por decisão judicial até a eleição dos sucessores deve comprometer uma atividade estratégica da cooperativa antes que essa eleição aconteça?

Ou uma decisão dessa magnitude deveria ser submetida a uma administração recém-eleita — ou diretamente aos próprios cooperados?

Outra pergunta é inevitável:

o resultado da próxima eleição poderia colocar em risco, modificar ou até impedir o negócio com a Piracanjuba?

Se a resposta for não, por que não aguardar?

Se a resposta for sim, torna-se ainda mais importante saber por que existe pressa.

O QUE A JUSTIÇA PRECISA ESCLARECER

Também é necessário saber exatamente onde estão hoje os processos que impedem a normalização eleitoral da Complem.

Em 2024, a cooperativa informou existirem três processos relacionados ao pleito, todos então com sentença em primeiro grau.

Passados mais de dois anos daquela manifestação, os cooperados precisam saber:

o que ainda impede a eleição?

Existe recurso pendente?

Existe decisão determinando quando ela deverá ocorrer?

Quem está recorrendo?

Há algum impedimento jurídico atual para convocação de um novo pleito?

E, principalmente:

há possibilidade de a eleição acontecer antes da efetiva transferência da operação industrial para a Piracanjuba?

O CADE TAMBÉM PRECISA CONHECER O CENÁRIO

O CADE não é responsável por decidir quem deve administrar a Complem.

Sua função é concorrencial.

Mas existe um dado institucional que não pode ser ignorado na compreensão da operação submetida ao órgão: a administração que negociou o negócio desde 2025 exerce o mandato por força de uma prorrogação judicial decorrente de uma eleição ainda litigiosa.

A transação, por sua vez, ainda depende da autorização do CADE. Até a decisão definitiva, Complem e Piracanjuba afirmam que permanecerão independentes.

Por isso, a cronologia agora se torna fundamental.

2019: Sérgio Penido é eleito.

2022: deveria ocorrer nova eleição.

2022–2026: o conflito eleitoral permanece judicializado e os mandatos são prorrogados até eleição e posse dos sucessores.

2025: começam as negociações com a Piracanjuba.

2026: o negócio é anunciado e surge a previsão de iniciar a nova operação em até dois meses.

Não se pode afirmar, sem provas, que exista uma corrida deliberada para consumar o negócio antes da eleição.

Mas diante dessa sequência de acontecimentos, existe uma pergunta que a direção da Complem precisa responder objetivamente:

por que concluir agora uma decisão que poderá comprometer o futuro industrial da cooperativa por anos, enquanto os próprios cooperados continuam esperando desde 2022 para escolher quem vai comandá-la?

Talvez a questão mais importante sobre o acordo Complem–Piracanjuba já não seja apenas quanto ele vale.

É outra:

quem deveria ter legitimidade para decidir sobre ele?


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