INVESTIGAÇÃO | Uma das mais controversas operações financeiras da história do Goiás Esporte Clube atravessa empréstimos milionários, uma confissão de dívida, a venda de Welliton para a Rússia e uma batalha judicial que durou anos. No centro dessa cronologia aparece João Bosco Luz de Morais: advogado e diretor jurídico do Goiás no período dos negócios e, posteriormente, presidente de uma administração cujas demonstrações financeiras continuaram reconhecendo R$ 3,145 milhões da JF Esportes no passivo do clube.
Existe uma pergunta que atravessa quase duas décadas da história financeira do Goiás:
se o dinheiro da JF entrou no clube, por que a empresa terminou sem receber?
A JF Sports — identificada nos documentos como JF Esportes Ltda. — realizou empréstimos ao Goiás por meio de contratos de mútuo.
E a existência dessa obrigação não apareceu apenas nas alegações da empresa.
As próprias demonstrações contábeis do Goiás registraram R$ 3.145.309,00 em “Títulos a Pagar – JF Esportes Ltda.”
Era dinheiro contabilizado no passivo do próprio clube.
JOÃO BOSCO ESTAVA NO JURÍDICO
É aqui que entra um personagem fundamental para compreender essa história: João Bosco Luz de Morais.
Antes de assumir a presidência do Goiás, João Bosco teve longa atuação jurídica dentro do clube. Registros públicos apontam que ele atuou como advogado do Goiás entre 1996 e 2009, período que alcança justamente os negócios realizados com a JF, a renegociação da dívida e a posterior transferência de Welliton para o futebol russo.
João Bosco também exerceu funções de direção jurídica no Goiás ao longo de sua trajetória no clube.
Isso significa que ele não aparece nessa história apenas anos depois, como presidente. Sua atuação profissional estava ligada ao departamento jurídico esmeraldino durante o período central da controvérsia.
Ainda é necessário localizar o contrato original, com todas as assinaturas, para estabelecer quem pessoalmente elaborou, aprovou e assinou cada instrumento. Mas a posição ocupada por João Bosco dentro da estrutura jurídica do Goiás naquele período é parte relevante da cronologia e precisa ser esclarecida.
UMA CONFISSÃO DE DÍVIDA E 50% DE WELLITON
Em 8 de janeiro de 2007, a relação ganhou contornos ainda mais impressionantes.
Segundo documentos reproduzidos no processo judicial, foi celebrado um “Contrato de Confissão de Dívida e de Parceria sobre Valores Econômicos e Financeiros Advindos de Negociação de Atleta Profissional de Futebol e Outras Avenças”.
A obrigação foi renegociada e a JF passou a reivindicar, com base naquele instrumento, 50% dos valores decorrentes de uma futura negociação de Welliton.
E Welliton foi vendido.
O atacante deixou o Goiás rumo ao Spartak Moscou, da Rússia.
Nos autos aparecem aproximadamente R$ 21,04 milhões relacionados à transferência.
A JF sustentou que deveria receber a parcela estabelecida no acordo.
Segundo a empresa, o dinheiro não foi repassado.
DE DIRETOR JURÍDICO A PRESIDENTE
A participação institucional de João Bosco ganha ainda mais relevância porque sua relação com o assunto atravessa diferentes momentos da história do Goiás.
Primeiro, estava ligado juridicamente ao clube durante o período em que os negócios foram celebrados e Welliton negociado.
Depois, João Bosco chegou à presidência executiva do Goiás para o biênio 2012/2013.
E existe um documento particularmente importante.
Nas demonstrações financeiras do clube referentes à sua administração continuava registrada a rubrica:
“TÍTULOS A PAGAR – R$ 3.145.309”
As notas explicativas vinculavam esse valor aos instrumentos particulares de mútuo celebrados com a JF Esportes Ltda., embora o Goiás já estivesse contestando judicialmente a obrigação.
Portanto, durante a gestão João Bosco, a dívida da JF não desapareceu da contabilidade do Goiás.
Permanecia registrada no passivo.
Esse ponto é fundamental: o homem que havia integrado a estrutura jurídica do clube no período dos negócios posteriormente comandou uma administração cujas próprias demonstrações financeiras continuavam apresentando aqueles milhões como obrigação relacionada à JF.
A GUERRA NA JUSTIÇA
Apesar desse histórico contábil, o Goiás passou a combater judicialmente a cobrança.
Em 2014, sofreu uma dura derrota em primeira instância. A Justiça rejeitou sua defesa, determinou o prosseguimento da cobrança e chegou a condenar o clube por litigância de má-fé.
A sentença, entretanto, acabou cassada pelo Tribunal de Justiça de Goiás por cerceamento de defesa.
O processo retornou para produção de provas.
Em 2018, veio a grande virada: uma nova decisão favoreceu o Goiás e afastou as obrigações discutidas na demanda.
A JF tentou recorrer, mas enfrentou uma questão decisiva envolvendo a intempestividade da apelação.
O caso ainda passou pelos tribunais superiores sem que, naquele estágio, a empresa conseguisse reverter a situação favorável ao Goiás.
MAS QUEM FICOU COM O DINHEIRO?
É aqui que a discussão deixa de ser simplesmente processual.
Se a documentação contábil e as provas produzidas confirmam que recursos da JF efetivamente ingressaram no Goiás, existe uma pergunta que nenhuma vitória processual consegue apagar da história:
quem ficou com o dinheiro?
Se houve empréstimo, por que não houve restituição?
Se havia dívida, por que foi necessário posteriormente discutir sua nulidade?
Se houve uma confissão de dívida vinculando o pagamento à venda de Welliton, por que a negociação milionária com o Spartak não encerrou o problema?
E qual foi, exatamente, a participação de João Bosco Luz, então ligado ao departamento jurídico, na análise, elaboração ou condução desses negócios?
Depois, quando assumiu a presidência, por que a administração comandada por ele continuou registrando R$ 3,145 milhões da JF como títulos a pagar?
DOCUMENTOS PRECISAM RESPONDER
O caso exige mais do que versões.
Exige o contrato original de 2007.
Exige as assinaturas.
Exige os pareceres jurídicos.
Exige os documentos bancários dos empréstimos.
Exige a documentação completa da transferência de Welliton ao Spartak.
E exige compreender como uma empresa que colocou recursos dentro do Goiás, teve valores registrados no passivo do próprio clube e participou de uma renegociação envolvendo uma das maiores vendas de jogador da história esmeraldina terminou uma longa batalha judicial sem receber aquilo que sustentava ter direito.
O Blog do Cleuber Carlos continuará levantando esses documentos.
Porque existe uma pergunta que permanece de pé:
se o dinheiro entrou no Goiás e a própria contabilidade registrou a dívida, quem decidiu que ela não seria paga — e qual foi o papel do departamento jurídico nessa história?
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