segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Adolescente Embriagado Fura Sinal Vermelho e Mata Duas Pessoas

INVESTIGAÇÃO | Adolescente de 17 anos embriagado teria avançado o sinal vermelho e atingido casal que seguia de moto para o trabalho em Goiânia. Neifa e Fábio morreram após dias internados. Mas o caso ganhou um capítulo ainda mais controverso: a caminhonete envolvida na colisão, pertencente a um policial militar aposentado, foi retirada do local antes da perícia e posteriormente localizada em uma oficina. Polícia Civil agora tenta reconstruir o que aconteceu.

Às 6h52 da manhã de domingo, 16 de agosto, Fábio Alves Barbosa e Neifa Freitas de Farias Alves seguiam de motocicleta pelo cruzamento das avenidas Perimetral Norte e Campinas, em Goiânia.

Era um domingo de trabalho.

Eles não chegaram ao destino.

Uma caminhonete Fiat Toro atingiu violentamente a motocicleta em que estava o casal. Câmeras de segurança registraram a colisão.

Segundo a investigação da Polícia Civil, quem dirigia a caminhonete era um adolescente de 17 anos. Ele teria avançado o sinal vermelho.

Havia mais um agravante.

O teste do bafômetro registrou 0,52 miligrama de álcool por litro de ar expelido.

O adolescente estava embriagado.

O que inicialmente entrou para as estatísticas como mais um grave acidente de trânsito em Goiânia terminou, uma semana depois, com duas mortes.

Mas entre a colisão e a investigação surgiu uma sequência de acontecimentos que levanta perguntas ainda sem respostas claras.

A principal delas é simples:

como a caminhonete envolvida em um acidente gravíssimo foi retirada do local antes de ser periciada e acabou em uma oficina?

O CASAL MORREU

O impacto deixou Fábio e Neifa em condições extremamente graves.

Neifa sofreu traumatismo cranioencefálico grave, hemorragia subaracnoidea, trauma torácico, fraturas nas costelas, hemopneumotórax e múltiplas fraturas na perna esquerda, incluindo fêmur e tíbia.

Foi intubada e permaneceu sob cuidados intensivos no Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, o Hugol.

Não resistiu.

A morte foi confirmada no dia 20 de agosto, depois da conclusão do protocolo de morte encefálica. A família autorizou a doação de órgãos.

Fábio também sofreu múltiplos traumas.

Segundo familiares, chegou a sofrer uma parada cardíaca durante o atendimento e precisou ser reanimado. Apresentava lesões na coluna, tórax e órgãos internos.

Permaneceu internado por uma semana.

No domingo, 23 de agosto, morreu.

Em sete dias, o acidente passou de duas vítimas gravemente feridas para um casal morto.

ELE PEGOU A CAMINHONETE ESCONDIDO

A versão apresentada pela defesa é de que o adolescente pegou o veículo sem autorização.

Em depoimento, acompanhado do pai e de advogado, teria afirmado que saiu com a caminhonete para “esfriar a cabeça”.

Os pais, segundo a defesa, estavam dormindo e não perceberam quando o adolescente saiu.

Só que existe um detalhe importante.

A Fiat Toro nem sequer pertencia à família.

Segundo informações divulgadas após o acidente, a caminhonete seria de um policial militar aposentado e havia sido emprestada aos pais do adolescente para auxiliar no transporte de mercadorias durante uma feira de moda realizada na capital.

Portanto, a sequência apresentada até aqui é esta:

um adolescente de 17 anos pega escondido um veículo emprestado à família, sai dirigindo sem habilitação, bebe — ou já havia bebido —, avança um sinal vermelho, segundo a investigação, e atinge um casal que seguia para trabalhar.

O bafômetro marca 0,52 mg/L.

Duas pessoas acabam mortas.

Mas é depois da colisão que o caso começa a ganhar contornos ainda mais delicados.

A CAMINHONETE SAIU ANTES DA PERÍCIA

Uma ocorrência com vítimas em estado gravíssimo normalmente exige preservação de elementos capazes de ajudar a Polícia Técnico-Científica a reconstruir a dinâmica da colisão.

Posição dos veículos.

Marcas de frenagem.

Ponto de impacto.

Danos.

Distâncias.

Vestígios deixados no asfalto.

Tudo pode ajudar a estabelecer como ocorreu o acidente.

Nesse caso, entretanto, quando a perícia poderia trabalhar sobre a cena original, os veículos já haviam sido retirados.

Segundo informações atribuídas à própria Polícia Civil, tanto a caminhonete quanto a motocicleta foram removidas, circunstância que inviabilizou a realização da perícia no local do acidente de trânsito.

Não se trata de um detalhe burocrático.

A cena original simplesmente deixou de existir.

E surge uma pergunta inevitável:

quem determinou ou autorizou a retirada dos veículos?

DA CENA DO ACIDENTE PARA UMA OFICINA

A história fica ainda mais controversa.

A Fiat Toro não apenas deixou o cruzamento.

Posteriormente, a caminhonete foi localizada dentro de uma oficina.

Segundo declaração atribuída ao delegado Rômulo Matos, responsável pela apuração, assim que a Polícia Civil tomou conhecimento de que o veículo estava no estabelecimento, determinou que qualquer serviço fosse interrompido.

A orientação teria sido para que a proprietária da oficina e o dono da caminhonete preservassem o veículo para a perícia da Polícia Técnico-Científica.

É aqui que a investigação precisa avançar.

Quando a Toro chegou à oficina?

Quem levou?

Foi transportada por guincho ou conduzida?

Quem solicitou o serviço?

Que reparos foram pedidos?

Alguma peça chegou a ser retirada?

Algum serviço foi iniciado?

O veículo sofreu qualquer alteração antes de ser colocado à disposição da perícia?

E, principalmente:

por que uma caminhonete envolvida em uma ocorrência que deixou duas pessoas entre a vida e a morte foi encaminhada para uma oficina antes da conclusão dos trabalhos periciais?

Não há, até aqui, demonstração pública de que tenha ocorrido adulteração deliberada de provas. Seria irresponsável afirmar isso sem evidências.

Mas a retirada do veículo e sua posterior presença em uma oficina são fatos que precisam ser completamente esclarecidos.

TESTEMUNHA APRESENTA OUTRA VERSÃO

Há ainda divergência sobre o comportamento do adolescente imediatamente depois da colisão.

A informação inicial era de que ele permaneceu no local.

Uma testemunha, porém, apresentou posteriormente uma versão mais detalhada.

Segundo relato publicado pelo Mais Goiás, o adolescente teria tentado movimentar a caminhonete após atingir o casal, mas não conseguiu porque a motocicleta ficou presa sob o veículo.

Somente depois teria descido da Toro.

Se essa versão estiver correta, câmeras de segurança podem ser fundamentais para esclarecer exatamente o que aconteceu nos segundos seguintes ao impacto.

O DONO DA TORO

Outro personagem precisa ser melhor compreendido.

O proprietário da caminhonete seria um sargento aposentado da Polícia Militar.

Segundo uma testemunha ouvida pelo Mais Goiás, ele teria chegado ao local aproximadamente uma hora depois do acidente.

A mesma testemunha relatou que teria havido preocupação com a repercussão do episódio e com uma eventual associação do veículo a uma candidata.

Esse ponto exige cautela.

Até o momento, trata-se de relato atribuído a uma testemunha. Não há demonstração pública de quem seria a candidata, qual seria sua relação com a caminhonete ou mesmo se essa relação efetivamente existe.

Mas a afirmação abre uma nova frente de apuração.

Qual candidata?

Por que o veículo poderia ser associado a ela?

A caminhonete prestava algum serviço de campanha?

Transportava material político?

O proprietário possui vínculo político?

A feira de moda para a qual o veículo teria sido emprestado possui alguma relação com candidatura ou campanha?

Sem documentos ou outras provas, nenhuma dessas hipóteses pode ser apresentada como fato.

Mas todas merecem resposta.

O PASSADO DO PROPRIETÁRIO

Há outro elemento que aumenta a necessidade de uma apuração documental rigorosa.

Reportagem do Mais Goiás afirma que o PM aposentado apontado como proprietário da caminhonete já teria sido preso anteriormente em uma operação relacionada à investigação de um suposto esquema de propina em Caldas Novas.

O episódio anterior, por si só, não prova absolutamente nenhuma irregularidade no acidente de Goiânia.

Uma coisa não pode ser usada para condenar alguém pela outra.

Mas, diante do conjunto de circunstâncias, a identificação completa do proprietário, sua relação com a família do adolescente e as condições em que o veículo foi emprestado precisam integrar a investigação jornalística.

DE LESÃO CORPORAL PARA DUAS MORTES

O adolescente foi apreendido após o acidente e encaminhado à delegacia.

Inicialmente, foi autuado por ato infracional análogo ao crime de lesão corporal na direção de veículo e posteriormente liberado.

Só que as vítimas morreram.

Primeiro Neifa.

Depois Fábio.

O delegado responsável já havia informado, após a primeira morte, que o enquadramento jurídico deveria ser revisto para ato infracional análogo a homicídio culposo na direção de veículo automotor.

Agora são duas mortes.

Por ser menor de 18 anos, o motorista não responde criminalmente segundo as mesmas regras aplicáveis a um adulto. O caso tramita sob as normas do Estatuto da Criança e do Adolescente e pode resultar na aplicação de medidas socioeducativas.

A embriaguez, o fato de não possuir habilitação, o avanço do sinal apontado pela investigação e toda a dinâmica anterior e posterior à colisão serão elementos relevantes para as autoridades.

AS PERGUNTAS QUE FICARAM

A morte de Fábio e Neifa já seria suficiente para transformar o episódio em uma tragédia.

Mas existem perguntas que ultrapassam a responsabilidade do adolescente.

Quem retirou a caminhonete do local?

Quem autorizou?

Por que a perícia da cena não ocorreu antes da remoção?

Quem levou a Toro para uma oficina?

Quando isso aconteceu?

Que serviço seria realizado?

Algum reparo chegou a ser iniciado?

A caminhonete foi modificada antes da perícia?

Qual a relação entre o proprietário do veículo e a família do adolescente?

E quem é a candidata mencionada pela testemunha?

São perguntas objetivas.

E precisam de respostas igualmente objetivas.

Porque Fábio e Neifa saíram de casa para trabalhar numa manhã de domingo.

Encontraram no caminho um adolescente de 17 anos dirigindo uma caminhonete que não era dele, com 0,52 mg/L de álcool apontado pelo bafômetro, e que, segundo a investigação, avançou o sinal vermelho.

Os dois morreram.

A caminhonete deixou a cena.

A perícia do local ficou inviabilizada.

E o veículo acabou localizado em uma oficina.

Duas vidas terminaram naquele cruzamento.

Agora cabe à investigação explicar por que parte importante da cena do acidente desapareceu antes que a perícia pudesse examiná-la.



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