quarta-feira, 29 de julho de 2026

Taquaral Gasta Mais de 1 Milhão em Shows e paga até três vezes mais por artistas do que outras prefeitura

Levantamento da reportagem compara contratos públicos e identifica diferenças expressivas nos valores pagos pela Prefeitura de Taquaral de Goiás. Embora a variação de cachês possa decorrer de fatores técnicos e comerciais, especialistas afirmam que diferenças dessa magnitude exigem justificativa detalhada e pesquisa de preços consistente.

Mais de R$ 1,04 milhão foi destinado pela Prefeitura de Taquaral de Goiás à contratação de atrações artísticas para a Festa do Peão, Réveillon e Folia de Reis. Os contratos constam no Portal da Transparência do município e incluem cachês que variam entre R$ 40 mil e R$ 220 mil. 

A reportagem comparou parte desses contratos com outros firmados por administrações municipais para os mesmos artistas e encontrou diferenças relevantes.

Rayane & Rafaela: Taquaral pagou R$ 120 mil a mais

O caso mais expressivo envolve a dupla Rayane & Rafaela.

Em Taquaral de Goiás, o contrato foi firmado por R$ 180 mil.

Já a Prefeitura de Catas Altas (MG) contratou a mesma dupla por R$ 60 mil.

A diferença chega a R$ 120 mil, fazendo com que Taquaral desembolsasse exatamente três vezes o valor pago pelo município mineiro.

Naturalmente, a diferença não significa, por si só, que exista irregularidade. Cachês podem variar conforme período do ano, duração do espetáculo, logística, estrutura técnica, exclusividade, demanda do artista e outras condições contratuais.

Ainda assim, uma diferença dessa dimensão reforça a necessidade de a administração demonstrar quais pesquisas de mercado embasaram a contratação.

DJ Cíntia Souza: quase o triplo do valor encontrado em outro município

Outra contratação que chama atenção é a da DJ Cíntia Souza.

A Prefeitura de Taquaral pagou R$ 70 mil.

Já a Prefeitura de Itauçu (GO) contratou a artista por R$ 25 mil.

A diferença foi de R$ 45 mil, o que representa um valor aproximadamente 180% superior ao encontrado naquele contrato público.

Mais uma vez, a existência de preços distintos não comprova superfaturamento, mas torna indispensável a apresentação dos estudos técnicos que justificaram o valor contratado.

Cada Habitante Pagou R$ 249,00 

Com população estimada em apenas 4.180 habitantes, Taquaral de Goiás arrecadou R$ 35,78 milhões em 2024, segundo dados oficiais do IBGE e do Tesouro Nacional. Nesse contexto, chama a atenção que a Prefeitura, sob a gestão da prefeita Lorena Machado Neri, tenha destinado R$ 1,04 milhão apenas para contratação de atrações artísticas. O montante corresponde a cerca de 2,9% de toda a receita anual do município e equivale a aproximadamente R$ 249 por habitante. A realização de eventos é uma política pública legítima e pode gerar benefícios econômicos e culturais. O questionamento, porém, não está na promoção das festas, mas na gestão dos recursos públicos: quando contratos apontam que alguns artistas receberam cachês significativamente superiores aos pagos por outras prefeituras, torna-se indispensável demonstrar, por meio de pesquisas de mercado e justificativas técnicas, que os valores contratados eram compatíveis com os praticados nas mesmas condições. É essa prestação de contas que a população tem o direito de exigir.


Mais de R$ 1 milhão em apresentações

Os contratos localizados pela reportagem mostram que Taquaral contratou:

  • Brenno & Matheus — R$ 220 mil
  • Luiza Martins — R$ 180 mil
  • Rayane & Rafaela — R$ 180 mil
  • DJ Vinícius Cavalcante — R$ 100 mil
  • DJ Ana Flávia — R$ 75 mil
  • DJ Cíntia Souza — R$ 70 mil
  • Banda Realce — R$ 65 mil
  • Banda Brizza — R$ 60 mil
  • DJ Tubas — R$ 50 mil
  • Juliano Reis — R$ 40 mil

Somados, os cachês alcançam R$ 1.040.000,00 apenas com atrações artísticas. 

Taquaral shows .pdf

O que a Prefeitura precisa demonstrar

A Lei nº 14.133/2021 permite a contratação direta de artistas por inexigibilidade de licitação, desde que sejam atendidos requisitos legais, entre eles a demonstração de que o preço contratado é compatível com o praticado no mercado.

Isso significa que o município deve possuir documentação técnica capaz de responder perguntas objetivas:

  • Quais contratos serviram de referência para definir os cachês?
  • Quantas pesquisas de preços foram realizadas?
  • Quais critérios justificaram pagar R$ 180 mil por Rayane & Rafaela quando existe contrato público localizado por R$ 60 mil em Catas Altas?
  • Por que a DJ Cíntia Souza recebeu R$ 70 mil em Taquaral, enquanto Itauçu contratou a mesma artista por R$ 25 mil?
  • Há elementos técnicos que expliquem essas diferenças?

Caso existam estudos demonstrando que os valores eram compatíveis com o mercado nas mesmas condições de contratação, as despesas poderão ser consideradas regulares.

Entretanto, se a documentação não justificar diferenças tão expressivas, caberá aos órgãos de controle analisar se foram observados os princípios da economicidade, da eficiência e da boa gestão dos recursos públicos.

Mais do que publicar contratos no Portal da Transparência, a administração pública deve demonstrar que cada real pago corresponde ao melhor preço possível dentro das condições concretas de cada contratação. É justamente essa demonstração que diferencia uma despesa regularmente motivada de uma contratação que desperta dúvidas legítimas da sociedade.

Nota da Redação: Esta reportagem foi elaborada com base em documentos públicos, contratos administrativos e informações disponíveis em portais oficiais. O objetivo é promover o debate sobre a aplicação dos recursos públicos e o cumprimento dos princípios da economicidade, eficiência e transparência na administração pública. O espaço permanece aberto para que a Prefeitura de Taquaral de Goiás e a prefeita Lorena Machado Neri apresentem esclarecimentos, informações complementares ou sua versão sobre os fatos abordados. Caso haja manifestação oficial, ela será publicada na íntegra, em respeito ao contraditório e ao direito de resposta.


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