quarta-feira, 25 de março de 2026

Pedro Sales e Prefeito de São Miguel Tem Que Explicar Para Onde Foram 500 Toneladas de Asfalto

 CÂMARA ADMITE CRISE GRAVE, EXPÕE INSUFICIÊNCIA DA GOINFRA E PEDE MAIS 500 TONELADAS EM SÃO MIGUEL DO ARAGUAIA

O que deveria ser tratado como rotina administrativa acabou se transformando em um registro institucional que expõe, com clareza incomum, a dimensão de um problema que já não cabe mais sob o asfalto — literalmente.

Um ofício oficial da Câmara Municipal de São Miguel do Araguaia, datado de 18 de março de 2026 e encaminhado ao presidente da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra), Pedro Henrique Ramos Sales, revela um cenário que vai muito além de pedidos pontuais: trata-se de uma admissão formal de colapso na malha viária urbana do município.

O documento não parte da oposição, nem de denúncia informal. Parte do próprio Legislativo municipal, que reconhece, em linguagem institucional, que as ruas e avenidas da cidade enfrentam “asfalto defeituoso, esburacado”, com impactos diretos no trânsito, aumento de acidentes, danos a veículos e transtornos à população. Não é interpretação. É texto oficial.

Mas o ponto mais sensível está na matemática do problema.

A Câmara agradece uma doação anterior de 500 toneladas de massa asfáltica feita pela Goinfra — e, ao mesmo tempo, afirma que esse volume “não deu para realizar nem 20% da demanda existente”. Em outras palavras, o próprio documento indica que a necessidade real do município pode ultrapassar, em escala, algo próximo de cinco vezes esse volume já aplicado.

E é aqui que o problema deixa de ser apenas técnico.

Se houve intervenção estadual recente, com fornecimento de insumo e atuação institucional, e ainda assim o impacto não alcançou sequer um quinto da demanda, a questão que se impõe não é apenas a falta de asfalto — é a dimensão estrutural do déficit urbano que permanece oculto sob ações pontuais.

O próprio ofício revela, ainda, outro dado relevante: a solução em curso não é estruturada por planejamento próprio do município, mas por meio de doações. O pedido formal é por mais 500 toneladas — ou seja, a continuidade do atendimento depende novamente da disponibilidade do Estado.

Do ponto de vista administrativo, isso levanta uma discussão inevitável sobre o modelo adotado: a política pública de recuperação asfáltica está sendo conduzida por planejamento técnico e execução estruturada, ou por respostas fragmentadas, dependentes de repasses pontuais?

Ao mesmo tempo, o documento adota um tom politicamente cuidadoso. Há elogios à atuação da Goinfra, reconhecimento de parceria com o Executivo municipal e manifestação de interesse na continuidade da cooperação. Esse equilíbrio retórico não anula o conteúdo — apenas revela o ambiente em que ele está inserido.

Porque, na prática, o que está registrado é simples e objetivo: a cidade enfrenta um problema amplo, a intervenção já realizada foi insuficiente em escala e a solução imediata proposta é repetir o mesmo mecanismo — nova doação.

A partir desse ponto, as perguntas deixam de ser retóricas e passam a ser administrativas.

Qual é o tamanho real da demanda total de massa asfáltica em São Miguel do Araguaia? Existe levantamento técnico consolidado dessa necessidade? Qual o custo estimado para uma solução definitiva — e não paliativa? O município possui capacidade orçamentária para enfrentar o problema com recursos próprios ou a dependência institucional do Estado tende a se perpetuar?

E mais: se 500 toneladas representam menos de 20% da demanda, quantas intervenções semelhantes seriam necessárias para alcançar um nível mínimo de recuperação urbana?

O documento não responde. Mas aponta.

E, ao apontar, deixa registrado que o problema não é pontual, não é episódico e não pode mais ser tratado como manutenção ordinária. Trata-se, em essência, de um quadro estrutural que já ultrapassou o campo técnico e entrou no campo institucional.

Porque quando o próprio poder público admite, em documento oficial, que a cidade está esburacada, que a solução aplicada não foi suficiente e que a resposta depende de novas doações, o que se tem não é apenas um pedido — é um diagnóstico.

E diagnósticos, quando ignorados, deixam de ser alerta e passam a ser prova.


Nenhum comentário: