domingo, 22 de fevereiro de 2026

ROMÁRIO POLICARPO — “VOCÊ NÃO APITA MAIS”: DO PLENÁRIO AO VESTIÁRIO

Entre o calor da derrota e o limite da institucionalidade existe uma linha. No Estádio Antônio Accioly, após o Vila Nova ser derrotado por 2 a 0 pelo Atlético, essa linha pode ter sido ultrapassada.

O vídeo gravado após o jogo, na saída dos vestiários, mostra que o árbitro Eduardo Tomaz foi duramente cobrado por dirigentes do Vila. Até aí, nada incomum no futebol brasileiro. O problema começa quando a cobrança vira intimidação. E a frase atribuída ao presidente da Câmara Municipal, Romário Policarpo, não é simples desabafo de torcedor:

“Você é o culpado. Você não apita mais jogo do Vila.”

Aqui o futebol encontra a política — e o choque não é pequeno.

Afirmar que um árbitro “não apita mais” determinado clube não é mera crítica técnica. É uma declaração que sugere poder de interferência na escala de arbitragem. E isso toca diretamente na autonomia da Federação e na credibilidade da competição. Se um dirigente ameaça excluir um árbitro do calendário do clube, está insinuando que pode influenciar quem apita ou deixa de apitar. Isso não é indignação. Isso é pressão.


E quando essa frase parte de alguém que ocupa a presidência de um Poder Legislativo, o peso muda. Não é um torcedor exaltado na arquibancada. É uma autoridade pública. E autoridade pública não fala apenas por si — fala sob o peso do cargo.



O futebol admite erro de arbitragem. O que não pode admitir é ambiente de intimidação. Se a abordagem ocorreu em área restrita, na saída dos vestiários, o episódio se agrava. Árbitro não é inimigo de clube. É agente da partida. Se errou, a análise é técnica. Se houve irregularidade, existem canais formais de reclamação. O que não existe no ordenamento esportivo é o direito de ameaçar.


O Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê punições para constrangimento, ameaça e ofensa a membro da arbitragem. A Federação Goiana de Futebol, se os fatos se confirmarem, não pode tratar o caso como “clima de jogo”. Silêncio institucional, nesse cenário, vira normalização de pressão.


O ponto mais grave não é a derrota do Vila. Nem o suposto erro do árbitro. É o recado que fica: pode autoridade política constranger arbitragem sem consequência?

Se a resposta for sim, o problema não está na marcação do pênalti. Está na estrutura do futebol.

Perder faz parte do esporte. Ameaçar não.


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