Não foi “surto”.
Não foi “momento de cabeça quente”.
E muito menos foi “crime passional” no sentido romantizado que parte da sociedade ainda insiste em repetir.
O que estamos vendo — à luz da psicanálise clássica e contemporânea — é algo mais profundo e mais desconfortável: o colapso de uma identidade construída sobre controle, honra e imagem.
E quando essa identidade desmorona, alguns homens não suportam cair sozinhos.
Caem destruindo.
A FERIDA NARCÍSICA QUE VIRA PASSAGEM AO ATO
Sigmund Freud já descrevia a chamada ferida narcísica: quando o sujeito não perde apenas o parceiro — perde a imagem de si mesmo.
Em estruturas em que:
- o valor pessoal está ligado à posse,
- o amor se confunde com propriedade,
- a masculinidade se ancora em domínio,
a traição não é vivida como frustração.
É vivida como aniquilação.
O problema não é a infidelidade em si.
É o sujeito que não suporta não ser o centro.
Quando o ego não consegue simbolizar a dor, o que surge é o acting out — a passagem ao ato. Não é loucura desorganizada. É descarga violenta de algo que não foi elaborado.
A psicanálise explica.
O Código Penal responsabiliza.
POSSE, CONTROLE E A ILUSÃO DA ÚLTIMA PALAVRA
Melanie Klein ensinou que, em estados regressivos, o outro deixa de ser sujeito e passa a ser “objeto”.
O parceiro vira “traidor”.
A relação vira campo de guerra.
Os filhos podem, tragicamente, ser vistos como extensão de propriedade.
E aqui está o ponto mais brutal:
Quando a lógica interna é de posse, destruir pode aparecer como forma de “retomar controle”.
Não se trata de explosão momentânea.
Trata-se de estrutura psíquica que não tolera perder.
Jacques Lacan aprofundaria ainda mais: quando o sujeito sustenta sua identidade no olhar social, a exposição ou a humilhação pública podem produzir queda insuportável do “eu ideal”.
Se não há maturidade emocional para atravessar essa queda, alguns preferem sair da cena de forma definitiva — e arrastam outros consigo.
TRAIÇÃO NÃO É CRIME. HOMICÍDIO É.
Aqui não cabe relativização moral travestida de compreensão psicológica.
Desde 2005, o adultério deixou de ser crime no Brasil.
Homicídio sempre foi.
Confundir dor emocional com autorização para matar é rasgar o pacto civilizatório.
O sofrimento pode ser devastador.
Mas sofrimento não autoriza violência.
O QUE A PSICANÁLISE ENSINA SOBRE OS FILHOS
Donald Winnicott foi direto: crianças dependem da organização emocional dos pais.
Quando o adulto entra em colapso:
- o ambiente se torna imprevisível,
- a proteção desaparece,
- a vulnerabilidade vira sentença.
Filhos não escolhem o ambiente emocional em que vivem.
Não escolhem o descontrole.
Não escolhem a tempestade.
São atravessados por ela.
E quando a dor do adulto não é tratada, ela transborda — quase sempre sobre quem não tem defesa.
O MITO DO “SURTO”
Chamar de surto é confortável.
Porque transforma um fenômeno estrutural em exceção clínica.
Mas a maioria desses casos não nasce de psicose aguda.
Nasce de:
- narcisismo frágil,
- incapacidade de elaborar frustração,
- cultura de posse,
- masculinidade baseada em domínio.
Não é a traição que mata.
É a incapacidade de lidar com ela.
A RESPONSABILIDADE QUE NÃO PODE SER DILUÍDA
A psicanálise não absolve.
Ela ilumina.
Entender o mecanismo não significa suavizar a gravidade.
Homicídio é escolha.
Passagem ao ato é falha psíquica — mas continua sendo ato do sujeito.
E sociedade que começa a relativizar violência por “dor emocional” abre caminho para repetir tragédias.
UMA VERDADE INCÔMODA
Adultos emocionalmente organizados salvam histórias.
Adultos desorganizados podem destruí-las.
A pergunta que fica não é apenas “como isso aconteceu?”.
É “que tipo de estrutura emocional estamos formando em nossa cultura?”.
Porque enquanto confundirmos amor com posse e honra com controle, continuaremos produzindo homens que não sabem perder.
E quem não sabe perder, às vezes, prefere destruir.
E isso, sim, é o que precisa ser enfrentado — sem romantização, sem anestesia e sem desculpas.
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