sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

QUANDO O NARCISISMO ENTRA EM COLAPSO, A VIOLÊNCIA VIRA LINGUAGEM


Não foi “surto”.

Não foi “momento de cabeça quente”.

E muito menos foi “crime passional” no sentido romantizado que parte da sociedade ainda insiste em repetir.


O que estamos vendo — à luz da psicanálise clássica e contemporânea — é algo mais profundo e mais desconfortável: o colapso de uma identidade construída sobre controle, honra e imagem.


E quando essa identidade desmorona, alguns homens não suportam cair sozinhos.


Caem destruindo.





A FERIDA NARCÍSICA QUE VIRA PASSAGEM AO ATO



Sigmund Freud já descrevia a chamada ferida narcísica: quando o sujeito não perde apenas o parceiro — perde a imagem de si mesmo.


Em estruturas em que:


  • o valor pessoal está ligado à posse,
  • o amor se confunde com propriedade,
  • a masculinidade se ancora em domínio,



a traição não é vivida como frustração.

É vivida como aniquilação.


O problema não é a infidelidade em si.

É o sujeito que não suporta não ser o centro.


Quando o ego não consegue simbolizar a dor, o que surge é o acting out — a passagem ao ato. Não é loucura desorganizada. É descarga violenta de algo que não foi elaborado.


A psicanálise explica.

O Código Penal responsabiliza.





POSSE, CONTROLE E A ILUSÃO DA ÚLTIMA PALAVRA



Melanie Klein ensinou que, em estados regressivos, o outro deixa de ser sujeito e passa a ser “objeto”.


O parceiro vira “traidor”.

A relação vira campo de guerra.

Os filhos podem, tragicamente, ser vistos como extensão de propriedade.


E aqui está o ponto mais brutal:


Quando a lógica interna é de posse, destruir pode aparecer como forma de “retomar controle”.


Não se trata de explosão momentânea.

Trata-se de estrutura psíquica que não tolera perder.


Jacques Lacan aprofundaria ainda mais: quando o sujeito sustenta sua identidade no olhar social, a exposição ou a humilhação pública podem produzir queda insuportável do “eu ideal”.


Se não há maturidade emocional para atravessar essa queda, alguns preferem sair da cena de forma definitiva — e arrastam outros consigo.





TRAIÇÃO NÃO É CRIME. HOMICÍDIO É.



Aqui não cabe relativização moral travestida de compreensão psicológica.


Desde 2005, o adultério deixou de ser crime no Brasil.

Homicídio sempre foi.


Confundir dor emocional com autorização para matar é rasgar o pacto civilizatório.


O sofrimento pode ser devastador.

Mas sofrimento não autoriza violência.





O QUE A PSICANÁLISE ENSINA SOBRE OS FILHOS



Donald Winnicott foi direto: crianças dependem da organização emocional dos pais.


Quando o adulto entra em colapso:


  • o ambiente se torna imprevisível,
  • a proteção desaparece,
  • a vulnerabilidade vira sentença.



Filhos não escolhem o ambiente emocional em que vivem.

Não escolhem o descontrole.

Não escolhem a tempestade.


São atravessados por ela.


E quando a dor do adulto não é tratada, ela transborda — quase sempre sobre quem não tem defesa.





O MITO DO “SURTO”



Chamar de surto é confortável.

Porque transforma um fenômeno estrutural em exceção clínica.


Mas a maioria desses casos não nasce de psicose aguda.

Nasce de:


  • narcisismo frágil,
  • incapacidade de elaborar frustração,
  • cultura de posse,
  • masculinidade baseada em domínio.



Não é a traição que mata.

É a incapacidade de lidar com ela.





A RESPONSABILIDADE QUE NÃO PODE SER DILUÍDA



A psicanálise não absolve.

Ela ilumina.


Entender o mecanismo não significa suavizar a gravidade.


Homicídio é escolha.

Passagem ao ato é falha psíquica — mas continua sendo ato do sujeito.


E sociedade que começa a relativizar violência por “dor emocional” abre caminho para repetir tragédias.





UMA VERDADE INCÔMODA



Adultos emocionalmente organizados salvam histórias.

Adultos desorganizados podem destruí-las.


A pergunta que fica não é apenas “como isso aconteceu?”.

É “que tipo de estrutura emocional estamos formando em nossa cultura?”.


Porque enquanto confundirmos amor com posse e honra com controle, continuaremos produzindo homens que não sabem perder.


E quem não sabe perder, às vezes, prefere destruir.


E isso, sim, é o que precisa ser enfrentado — sem romantização, sem anestesia e sem desculpas.


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