Sem tropas no gatilho, mas com dados no radar, Washington teve papel estratégico na caçada que terminou com a eliminação do líder do CJNG
A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, não foi apenas o desfecho de uma operação militar mexicana. Foi também o resultado de um jogo silencioso de inteligência internacional, no qual os Estados Unidos atuaram nos bastidores — sem soldados em campo, mas com tecnologia, informação e pressão geopolítica.
Oficialmente, o governo mexicano sustenta que a operação foi conduzida integralmente por suas forças federais. E foi. Exército, Guarda Nacional e inteligência mexicana executaram a ação em território nacional. Porém, reduzir o episódio a uma operação exclusivamente doméstica ignora um elemento central: o fluxo de inteligência fornecido por agências norte-americanas.
Nos últimos anos, Washington ampliou significativamente a cooperação com o México no combate aos cartéis. A criação de forças-tarefa conjuntas, como grupos interagências voltados ao rastreamento de redes financeiras, comunicações criptografadas e movimentações logísticas do narcotráfico, não foi mera formalidade diplomática. Foi estratégia.
Fontes internacionais apontam que informações compartilhadas por estruturas de inteligência dos EUA — incluindo monitoramento eletrônico, análise de satélites e cruzamento de dados financeiros — foram determinantes para localizar o líder do CJNG. Não houve “boots on the ground” americanos, mas houve olhos no céu e dados nas telas.
E aqui entra o componente político.
A política de segurança dos EUA endureceu progressivamente contra os cartéis mexicanos, especialmente após decisões de classificar determinadas organizações como ameaças terroristas. Esse enquadramento ampliou ferramentas jurídicas e operacionais de inteligência. Na prática, abriu caminho para cooperação mais agressiva e compartilhamento ampliado de dados estratégicos.
Não se trata de intervenção militar direta — algo que seria explosivo diplomaticamente. Trata-se de influência operacional indireta.
O México executou.
Os Estados Unidos mapearam.
A operação foi mexicana.
A inteligência teve DNA binacional.
Há ainda uma dimensão geopolítica pouco discutida: o impacto simbólico da eliminação de um dos narcotraficantes mais poderosos do hemisfério ocorre em um momento de forte debate sobre segurança na fronteira, tráfico de fentanil e pressões internas nos EUA. A morte de “El Mencho” serve também como mensagem política.
Mas é preciso cautela: cooperação não significa submissão, e apoio de inteligência não equivale a comando estrangeiro da operação. Até o momento, não há evidências de que forças americanas tenham participado diretamente da ação armada. O que há são indícios consistentes de colaboração técnica estratégica.
A pergunta relevante não é se os EUA apertaram o gatilho.
A pergunta é: sem o aparato tecnológico e informacional norte-americano, o desfecho teria sido o mesmo — e no mesmo tempo?
A resposta pode nunca ser oficialmente detalhada. Mas na guerra moderna contra o narcotráfico, quem controla a informação controla o resultado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário