GOVERNANÇA SOB PRESSÃO | Apuração do Blog do Cleuber Carlos indica que contrato não foi apresentado ao órgão fiscalizador, que também não emitiu parecer sobre a operação. Fonte relata restrições no acesso a documentos e desconhecimento sobre quem compõe carteira de R$ 267,7 milhões a receber.
A negociação entre Complem e Piracanjuba acaba de ganhar um novo e grave capítulo.
Informações obtidas pelo Blog do Cleuber Carlos junto a fonte com conhecimento direto dos procedimentos internos da cooperativa, cuja identidade será preservada, apontam que o Conselho Fiscal não teve acesso ao contrato completo firmado entre Complem e Piracanjuba.
Não conhece, portanto, integralmente valores, prazo, remuneração, garantias, obrigações e condições de rescisão estabelecidas no documento.
A revelação coloca uma pergunta no centro da discussão:
como fiscalizar os efeitos econômicos de um contrato que não foi apresentado ao próprio órgão de fiscalização?
SEM PARECER DO CONSELHO FISCAL
A situação vai além.
Segundo a fonte, o Conselho Fiscal não emitiu parecer, recomendação ou manifestação formal sobre a operação antes de seu anúncio.
Também não teria ocorrido Assembleia Geral especificamente para deliberar sobre o negócio.
De acordo com as informações recebidas pela reportagem, a operação foi conduzida no âmbito da administração da cooperativa.
O Blog apura agora quais dispositivos do Estatuto foram utilizados para fundamentar essa decisão e se, pelas características e dimensão do negócio, seria necessária alguma deliberação adicional.
R$ 267,7 MILHÕES A RECEBER — MAS DE QUEM?
Outro ponto revelado pela apuração envolve uma das maiores contas do balanço da Complem.
Em 2025, a cooperativa registrou aproximadamente R$ 267,7 milhões em créditos brutos a receber de cooperados e clientes.
Segundo a fonte, entretanto, o Conselho Fiscal recebe informações financeiras sobre essa carteira, mas não teria acesso à identificação individual completa dos devedores por CPF ou CNPJ.
A limitação levanta questões relevantes.
Como verificar concentração de crédito? Como identificar grandes devedores? Como analisar sucessivas renegociações, garantias ou eventual exposição a partes relacionadas sem conhecer quem está por trás dos valores?
DOCUMENTOS PODEM SER VISTOS, MAS HÁ RESTRIÇÕES
A reportagem também recebeu informações sobre a forma de consulta a determinados documentos financeiros.
Segundo a fonte, balancetes mensais e trimestrais podem ser examinados, porém a consulta ocorre presencialmente e haveria restrições à retirada, reprodução e registro dos documentos.
Isso coloca outra questão de governança:
o modelo permite ao Conselho Fiscal exercer fiscalização com a profundidade e independência necessárias?
A resposta precisa ser dada pela própria cooperativa e confrontada com o Estatuto e a legislação.
R$ 290 MILHÕES EM EMPRÉSTIMOS
As revelações ganham ainda mais peso diante da situação financeira registrada no balanço de 2025.
A Complem encerrou aquele exercício com aproximadamente R$ 290 milhões em empréstimos e financiamentos, dos quais cerca de R$ 187 milhões estavam classificados no curto prazo.
Ao mesmo tempo, negociou com a Piracanjuba uma profunda mudança em sua operação de lácteos.
Mesmo assim, permanecem sem conhecimento público detalhes fundamentais do negócio: quanto vale o contrato, quanto a Complem receberá, qual o prazo e quais obrigações foram assumidas pelas partes?
NOVA FRENTE DE INVESTIGAÇÃO
O Blog do Cleuber Carlos também recebeu informações sobre movimentações financeiras e utilização de cartão corporativo ligado à administração da cooperativa.
Documentos sobre essas despesas estão sendo obtidos e serão analisados antes da publicação de qualquer conclusão.
A reportagem irá verificar valores, estabelecimentos, finalidade das despesas, autorizações e eventual prestação de contas.
A Complem deverá ser procurada para responder aos questionamentos e terá espaço para apresentar sua versão.
Mas uma pergunta já se impõe diante das informações obtidas:
se o Conselho Fiscal não recebeu o contrato com a Piracanjuba e enfrenta limitações no acesso a informações financeiras, quem está fiscalizando efetivamente uma cooperativa que movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano?
E há outra, ainda mais direta:
se nem o órgão fiscalizador conhece integralmente uma operação dessa dimensão, o que os cooperados — os verdadeiros donos da Complem — sabem sobre o negócio?