INVESTIGAÇÃO | Constituída em 2024, Paladium Corp, hoje conhecida como PAX AI, tornou-se parceira tecnológica do programa de segurança pública de Goiás. Empresa passou a declarar capital superior a R$ 212 milhões, tem ligação societária com holding nos Estados Unidos e aparece no centro de questionamentos do Ministério Público sobre a contratação, os valores envolvidos e a proteção de dados dos cidadãos.
O programa IA Contra o Crime, apresentado pelo Governo de Goiás como uma das principais apostas tecnológicas no enfrentamento da criminalidade, esconde por trás das câmeras, dos algoritmos e dos sistemas de reconhecimento inteligente uma estrutura empresarial que merece ser examinada com atenção. No centro dessa operação está uma empresa privada constituída há pouco mais de dois anos, que teria iniciado suas atividades com capital social de apenas R$ 20 e que hoje participa de uma parceria tecnológica relacionada a um contrato público de aproximadamente R$ 304,8 milhões.
A empresa é a Paladium Corp Desenvolvimento de Tecnologia Ltda., atualmente identificada pela marca PAX AI, inscrita no CNPJ nº 56.025.090/0001-20. Constituída em 22 de julho de 2024, a companhia passou por uma expressiva transformação societária e financeira, chegando a declarar capital social superior a R$ 212 milhões. Seu crescimento chama a atenção não apenas pela velocidade, mas principalmente pela dimensão dos negócios públicos aos quais passou a estar vinculada.
É preciso fazer uma distinção fundamental: o contrato de R$ 304,8 milhões não foi firmado diretamente com a PAX AI, mas com a Goiás Telecomunicações S.A., a Goiastelecom, estatal responsável pela infraestrutura tecnológica do projeto. A empresa privada aparece na estrutura de fornecimento da solução de inteligência artificial. Portanto, não há elementos suficientes para afirmar que todo o valor contratado será recebido pela PAX AI.
Ainda assim, a participação da companhia no empreendimento levantou questionamentos relevantes dos órgãos de controle.
DE R$ 20 A MAIS DE R$ 212 MILHÕES
A trajetória financeira da Paladium é um dos aspectos que mais despertam interesse. Segundo informações divulgadas pela Agência Pública, a companhia foi constituída com capital social de R$ 20, valor posteriormente elevado para mais de R$ 212 milhões.
O crescimento patrimonial declarado não representa, por si só, irregularidade. A empresa informou ter recebido investimentos internacionais, incluindo recursos associados aos fundos Greenoaks e Benchmark, em uma rodada anunciada de US$ 40 milhões. Entretanto, a evolução do capital social não substitui a necessidade de examinar a capacidade operacional da companhia, seu histórico de fornecimento, os contratos executados e as garantias oferecidas ao poder público.
O fundador e executivo David Peixoto dos Santos aparece na administração da empresa, cuja estrutura societária também inclui a Paladium Holdings LLC, pessoa jurídica sediada no estado de Delaware, nos Estados Unidos.
A presença de uma holding estrangeira não constitui ilegalidade. Mas, quando se trata de uma empresa que fornece tecnologia destinada ao processamento de imagens e informações sensíveis da população, conhecer a cadeia societária e os beneficiários finais passa a ser uma questão de transparência e interesse público.
A PORTA DE ENTRADA NO GOVERNO DE GOIÁS
A relação entre a Paladium e o Governo de Goiás antecede o contrato milionário anunciado em 2026.
Em 14 de junho de 2025, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás firmou com a empresa o Termo de Cooperação nº 12/2025, com vigência de 12 meses. O instrumento previa a disponibilização de serviços de videomonitoramento inteligente, incluindo suporte técnico, manutenção e gestão de imagens.
A cooperação foi apresentada como uma doação de serviços, modalidade que permite ao poder público experimentar ou utilizar determinadas soluções tecnológicas sem necessariamente realizar pagamentos durante aquela etapa.
A questão que merece investigação é o que aconteceu depois.
Em 2 de junho de 2026, foi firmado o Contrato nº 17/2026, no valor de R$ 304.810.006,02, entre o Estado de Goiás e a Goiastelecom, com vigência prevista até junho de 2031. O objeto envolve a expansão da estrutura de videomonitoramento, conectividade, centros de inteligência, plataforma analítica e manutenção.
A sucessão desses acontecimentos levanta uma pergunta objetiva: em que medida a experiência tecnológica iniciada por meio da cooperação gratuita influenciou a posterior estruturação da contratação milionária?
Não se trata de afirmar que a cooperação tenha sido irregular ou que tenha existido direcionamento. Trata-se de verificar se houve estudos comparativos, avaliação de soluções concorrentes e justificativas técnicas suficientes para a escolha do modelo adotado.
MINISTÉRIO PÚBLICO QUESTIONOU PARTICIPAÇÃO DE 60,26%
Um dos pontos mais sensíveis envolve a distribuição financeira do empreendimento.
Em questionamentos apresentados sobre a contratação, o Ministério Público de Goiás apontou uma participação atribuída à empresa privada equivalente a aproximadamente 60,26% do valor global do projeto, diante de discussões sobre um limite de subcontratação de 30%.
Aplicado ao contrato de R$ 304,8 milhões, esse percentual corresponde a aproximadamente R$ 183,7 milhões.
É indispensável esclarecer que essa quantia representa uma estimativa proporcional baseada no percentual questionado, e não a comprovação de que a PAX AI tenha recebido ou venha necessariamente a receber esse montante.
A discussão jurídica envolve a natureza da parceria, os instrumentos contratuais utilizados e a possibilidade de uma empresa privada executar parcela substancial de um empreendimento contratado com uma estatal.
Em junho de 2026, uma decisão judicial chegou a determinar a suspensão da contratação. Posteriormente, em 23 de junho, a Presidência do Tribunal de Justiça de Goiás suspendeu os efeitos da liminar, permitindo a continuidade do programa naquele momento.
A reversão da medida cautelar não equivale, por si só, ao julgamento definitivo de todos os questionamentos apresentados sobre a contratação.
A MESMA EMPRESA E OS QUESTIONAMENTOS EM SÃO PAULO
A atuação da Paladium não se restringe a Goiás.
A empresa também esteve associada a iniciativas de monitoramento inteligente no estado de São Paulo, incluindo o programa Muralha Paulista. Segundo investigação publicada pela Agência Pública, uma parceria relacionada ao projeto, no valor de R$ 476 milhões, foi rescindida em junho de 2026 após questionamentos de órgãos de controle.
A existência de questionamentos em mais de um estado não autoriza concluir que a empresa tenha praticado irregularidades. Entretanto, torna relevante comparar os modelos de contratação, os critérios de escolha, as exigências técnicas e os mecanismos de fiscalização utilizados pelas administrações estaduais.
QUEM CONTROLA AS IMAGENS E OS DADOS DOS GOIANOS?
Existe uma dimensão do programa IA Contra o Crime que ultrapassa a discussão sobre contratos e dinheiro público: o controle das informações produzidas pelo sistema.
Uma plataforma de videomonitoramento inteligente pode processar imagens de pessoas, veículos, deslocamentos e outros elementos utilizados em investigações policiais. Dependendo das funcionalidades empregadas, também pode envolver tratamento de dados biométricos.
Isso exige respostas sobre quem possui acesso às informações, onde são armazenadas, quais mecanismos impedem o uso indevido e quais são as responsabilidades da empresa fornecedora e do Estado.
O sistema precisa atender às normas aplicáveis de proteção de dados, segurança da informação e tratamento de informações pessoais pelas autoridades públicas.
A eficiência policial não elimina a obrigação de transparência contratual nem a necessidade de fiscalização sobre o uso da tecnologia.
O QUE O GOVERNO PRECISA ESCLARECER
A documentação conhecida até agora permite identificar a empresa, a estrutura geral da contratação, os valores envolvidos e os questionamentos levantados pelos órgãos de controle. Mas ainda não responde a todas as perguntas.
É necessário esclarecer qual parcela do contrato está efetivamente destinada à PAX AI, quais pagamentos já foram realizados, como foi definido o preço da tecnologia, quem são os beneficiários finais da estrutura societária estrangeira e quais mecanismos asseguram que o Governo de Goiás mantenha controle sobre os dados coletados.
Também é fundamental verificar se a contratação foi precedida de comparação efetiva entre fornecedores, quais estudos demonstraram sua vantajosidade econômica e qual é a situação atual dos procedimentos de fiscalização e das ações judiciais.
O Governo de Goiás tem o dever de garantir segurança à população. A utilização de inteligência artificial pode representar avanço importante no combate ao crime, especialmente quando integrada à investigação policial e à identificação de veículos e pessoas procuradas pela Justiça.
Mas uma política pública dessa dimensão precisa demonstrar não apenas resultados operacionais, como também legalidade, economicidade, transparência e proteção das informações dos cidadãos.
A pergunta central não é se Goiás deve utilizar inteligência artificial para combater a criminalidade. É como uma empresa criada em 2024, inicialmente com capital social de R$ 20, passou a integrar a estrutura tecnológica de um empreendimento público de R$ 304,8 milhões, quais critérios sustentaram essa escolha e quanto dinheiro público efetivamente será destinado à operação privada.
O Blog do Cleuber Carlos continuará acompanhando os contratos, a estrutura societária da PAX AI e os desdobramentos das investigações. O espaço permanece aberto para manifestações do Governo de Goiás, da Goiastelecom e da empresa.

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