REESTRUTURAÇÃO | Com R$ 290,2 milhões em empréstimos e financiamentos registrados no balanço de 2025, cooperativa anuncia parceria que coloca industrialização e comercialização dos produtos Compleite sob responsabilidade do Grupo Piracanjuba. Cerca de 200 trabalhadores serão incorporados pela empresa.
A Complem anunciou uma profunda mudança em sua operação. O Grupo Piracanjuba passará a ser responsável pelas atividades industriais do laticínio da cooperativa, incluindo a industrialização e a comercialização dos produtos da marca Compleite.
Oficialmente, a Complem afirma que não está vendendo sua indústria nem qualquer ativo. Define a operação como uma “parceria estratégica”, destinada a aumentar eficiência, escala e competitividade.
Na prática, entretanto, uma atividade central do negócio muda de mãos.
A Complem continuará responsável pela captação do leite, assistência técnica, relacionamento com os cooperados e outros segmentos, como nutrição animal. Já a operação industrial e comercial dos lácteos ficará com a Piracanjuba.
A mudança acontece em um momento de forte endividamento.
O balanço de 2025 revelou R$ 290,2 milhões em empréstimos e financiamentos, dos quais aproximadamente R$ 187 milhões estavam classificados no curto prazo. Somente os juros desses empréstimos consumiram R$ 33,67 milhões no exercício.
As sobras líquidas foram de R$ 12,19 milhões. Ou seja: a Complem gastou com juros quase três vezes o valor das sobras registradas no ano.
Outro detalhe chama atenção. Segundo a própria cooperativa, as discussões com a Piracanjuba começaram ainda em 2025, mesmo exercício retratado pelo balanço.
A reestruturação alcança também os trabalhadores. Aproximadamente 200 funcionários ligados à operação de lácteos serão incorporados pelo Grupo Piracanjuba. A Complem sustenta que os postos de trabalho serão preservados.
A marca Compleite também continuará existindo.
A operação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Até uma decisão definitiva, Complem e Piracanjuba continuarão atuando de maneira independente.
A parceria representa, portanto, uma mudança de dimensão histórica: depois de construir sua trajetória a partir do leite durante 48 anos, a Complem preserva patrimônio, marca e relacionamento com os produtores, mas entrega a um grande grupo privado a execução de sua operação industrial de lácteos.
A parceria com a Piracanjuba pode até representar uma solução para o futuro. Mas ela não apaga a pergunta sobre o passado: como a Complem chegou ao fundo do poço?
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