Caso apurado pela Rede Goiana de Notícias levanta questionamentos sobre a efetividade da garantia de fábrica e a responsabilidade da concessionária diante de um defeito que surgiu quando o veículo ainda era praticamente novo
Um veículo adquirido zero quilômetro, com menos de três meses de uso, apresenta um grave problema no motor. Em vez da substituição do conjunto mecânico, é submetido a uma retífica realizada pela própria concessionária. Pouco mais de dois anos depois, o motor volta a apresentar falhas e o proprietário recebe um orçamento de R$ 94.691,29 para o reparo. A justificativa para a negativa da garantia: uma única revisão realizada fora da rede autorizada.
CAOA Chery Tiggo 5X apresenta defeito grave no motor aos três meses de uso, passa por retífica na garantia e, após nove revisões, consumidor recebe orçamento de R$ 94 mil com negativa de cobertura da garantia de cinco anos
Caso investigado pela Rede Goiana de Notícias revela sequência de fatos que levanta questionamentos sobre a efetividade do reparo realizado quando o veículo era praticamente novo e sobre a justificativa apresentada para a negativa da garantia contratual.
Comprar um veículo zero quilômetro significa, para qualquer consumidor, adquirir não apenas um automóvel novo, mas também a tranquilidade proporcionada pela garantia de fábrica. No caso de um CAOA Chery Tiggo 5X 1.5T Hybrid Max, ano/modelo 2024/2025, essa expectativa começou a ruir apenas três meses após a entrega.
Documentos analisados pela Rede Goiana de Notícias (RGN) mostram que o veículo, adquirido em 26 de março de 2024, apresentou um grave problema no motor quando ainda estava integralmente coberto pela garantia contratual.
Em vez da substituição do conjunto mecânico — medida que muitos consumidores esperariam diante de uma falha tão precoce em um veículo zero quilômetro — a concessionária autorizada NISA AP Comercial de Veículos, em Aparecida de Goiânia, realizou uma retífica do motor, procedimento confirmado pelo proprietário e inserido na cronologia do caso.
O problema parecia resolvido
Após a intervenção realizada pela concessionária, o consumidor voltou a utilizar normalmente o veículo.
Ao longo dos meses seguintes, deu continuidade ao plano de manutenção previsto pela fabricante.
Segundo os documentos apresentados à reportagem, foram realizadas nove revisões periódicas.
Dessas nove revisões, oito ocorreram na própria rede autorizada da CAOA Chery.
Apenas uma revisão — a oitava — foi realizada fora da concessionária.
Na sequência, a nona revisão voltou a ser realizada normalmente na própria concessionária autorizada, retomando o histórico de manutenção na rede oficial.
É justamente após essa nona revisão, executada novamente pela autorizada, que o motor voltou a apresentar problemas.
Um orçamento que chama atenção
Ao retornar à concessionária, o consumidor não recebeu um novo reparo em garantia.
Recebeu um orçamento de R$ 94.691,29.
O documento contempla praticamente a substituição completa do conjunto motriz, incluindo motor, turbocompressor, componentes do sistema de arrefecimento, sensores, mangueiras, tubulações, filtros, lubrificantes e mão de obra especializada.
Somente o motor foi orçado em R$ 63.499,54.
O turbocompressor aparece avaliado em R$ 16.507,59.
Na data do orçamento, o veículo registrava 92.926 quilômetros rodados.
A justificativa da concessionária
Segundo o consumidor, a concessionária informou que a garantia não seria aplicada porque uma das revisões periódicas havia sido realizada fora da rede autorizada.
É justamente nesse ponto que a cronologia do caso passa a levantar questionamentos.
O primeiro defeito no motor ocorreu quando o veículo tinha aproximadamente três meses de uso.
Naquele momento, todas as revisões e manutenções estavam sendo realizadas exclusivamente na própria concessionária e o veículo encontrava-se integralmente protegido pela garantia de fábrica.
Posteriormente, das nove revisões realizadas, apenas uma ocorreu fora da rede autorizada.
Mesmo assim, a revisão seguinte voltou a ser realizada na própria concessionária.
Ainda assim, quando o motor voltou a apresentar falhas, a cobertura da garantia foi recusada.
O que permanece sem resposta
A sequência dos fatos suscita perguntas objetivas que permanecem sem resposta técnica.
Se o motor apresentou defeito ainda nos primeiros meses de uso, por que a solução adotada foi uma retífica, e não a substituição completa do conjunto mecânico?
O reparo executado durante a garantia solucionou definitivamente o problema ou apenas restaurou temporariamente o funcionamento do motor?
Existe laudo técnico demonstrando que a única revisão realizada fora da rede autorizada teve relação direta com o defeito posteriormente apresentado?
Caso exista esse laudo, qual componente teria sido efetivamente afetado?
E, principalmente, como a concessionária concluiu que uma única revisão externa seria suficiente para afastar a cobertura de uma garantia contratual amplamente divulgada ao consumidor como sendo de cinco anos, diante de um motor que já havia apresentado defeito grave quando o veículo ainda era praticamente novo?
A resposta da NISA
Em nota encaminhada à Rede Goiana de Notícias, a concessionária afirmou que não poderia comentar o caso específico em razão da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Também sustentou que as análises de garantia seguem critérios técnicos definidos pela fabricante e que o cumprimento do plano de revisões constitui requisito para manutenção da cobertura contratual.
A empresa acrescentou que diagnósticos e orçamentos seguem os procedimentos técnicos estabelecidos pela montadora e reafirmou compromisso com a transparência e com o atendimento aos consumidores.
A nota, entretanto, não respondeu diretamente por que o motor não foi substituído quando apresentou defeito aos três meses de uso, por que foi realizada uma retífica naquele momento nem se existe laudo técnico demonstrando vínculo entre a única revisão realizada fora da rede autorizada e o defeito posteriormente apresentado.
Muito além de um caso individual
O caso extrapola a relação entre um consumidor e uma concessionária.
Ele coloca em debate uma questão de interesse coletivo: qual é a efetividade de uma garantia de cinco anos quando um veículo zero quilômetro apresenta defeito grave no motor poucos meses após a compra, passa por um reparo de grande porte durante a garantia e, posteriormente, diante de um novo problema mecânico, recebe um orçamento de quase R$ 95 mil acompanhado da negativa de cobertura?
É essa pergunta que permanece no centro da investigação conduzida pela Rede Goiana de Notícias





Nenhum comentário:
Postar um comentário