quinta-feira, 30 de abril de 2026

MORRE RIDOVAL CHIARELOTO — E COM ELE, UM DOS ELOS MAIS EMBLEMÁTICOS ENTRE O PODER PÚBLICO E O SETOR PRODUTIVO EM GOIÁS

A morte do empresário e ex-secretário estadual Ridoval Darci Chiareloto, aos 81 anos, encerra uma trajetória que ajuda a explicar, com precisão cirúrgica, como se estruturou — e ainda se estrutura — a relação entre Estado e iniciativa privada em Goiás.

Mais do que uma liderança empresarial, Ridoval foi um operador de influência institucional. Presidiu entidades estratégicas, como a Associação Comercial e Industrial de Anápolis (ACIA) e a Facieg, ocupando espaços que, na prática, funcionam como pontes diretas entre interesses econômicos e decisões políticas.

Não por acaso, sua passagem pelo governo estadual, à frente da Secretaria de Indústria e Comércio entre 2003 e 2008, ocorreu exatamente no ponto em que essa relação se torna mais sensível: a formulação de políticas públicas voltadas à atração de empresas, concessão de incentivos e organização do ambiente econômico.

E aqui está o ponto que raramente aparece nas homenagens formais. Quando um mesmo agente transita com facilidade entre o comando de entidades empresariais e cargos estratégicos no Estado, ele deixa de ser apenas gestor — passa a ser peça de um sistema maior, onde interesses públicos e privados coexistem, nem sempre em linhas claras.


Ridoval seguiu nesse circuito mesmo após deixar a secretaria. Presidiu a então Goiás Industrial (hoje Codego), integrou a Agência Goiana de Regulação (AGR) e ainda ampliou sua atuação ao assumir função semelhante no Tocantins. Não é pouco. É, na prática, a consolidação de uma carreira construída exatamente na zona de interseção entre política, economia e influência institucional.

O discurso oficial fala em “legado”, “fortalecimento do setor produtivo” e “articulação pelo desenvolvimento regional”. E isso, de fato, existiu. Mas há uma leitura mais técnica — e necessária.

Ridoval representa uma geração de lideranças que ajudou a moldar o modelo econômico goiano baseado em incentivos, articulação política e forte presença de entidades empresariais na engrenagem decisória do Estado. Um modelo que trouxe crescimento. E também levantou, ao longo dos anos, questionamentos sobre limites, transparência e equilíbrio de interesses.

A morte de Ridoval não é apenas o fim de uma trajetória individual. É o fechamento de um capítulo de um tipo específico de poder — silencioso, articulado e profundamente enraizado nas estruturas do Estado.

E esse tipo de poder, diferente das pessoas, não desaparece. Ele se transforma.

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