Em pleno século XXI, quando se espera que a gestão pública siga padrões mínimos de responsabilidade fiscal, transparência e moralidade administrativa, emerge mais um episódio que ilustra como parte da política goiana ainda opera na lógica do improviso, da troca de favores e da completa confusão entre o que é público e o que é privado.
Segundo denúncias recebidas pelo Blog, um prefeito do interior de Goiás teria recorrido a uma prática, no mínimo, absurda: pagar um show artístico cedendo lotes pertencentes ao patrimônio municipal para a empresária responsável pelo artista. O caso, descrito por diversas fontes, aponta que o evento foi realizado sem que sequer houvesse o devido empenho formalizado, como determina a legislação orçamentária, abrindo margem para uma série de irregularidades que podem configurar desde improbidade administrativa até danos ao erário.
A engrenagem é típica de administrações que tratam o patrimônio público como moeda de troca para resolver problemas de última hora. Ao invés de seguir o rito correto — empenhar o valor, justificar o gasto, comprovar vantajosidade, licitar quando exigido e pagar conforme a lei — o prefeito teria optado por uma “solução” paralela: entregar dois lotes da prefeitura como forma de pagamento pelo show.
A legislação brasileira é clara. O patrimônio municipal não pode ser doado sem interesse público devidamente comprovado, tampouco pode servir como instrumento de pagamento em negociações informais. O que se descreve na denúncia, caso confirmado, ultrapassa qualquer razoabilidade administrativa.
Não se trata apenas de ilegalidade: trata-se de um profundo desprezo pelo patrimônio público, como se bens municipais fossem fichas de um cassino político onde prefeitos jogam de acordo com seus interesses circunstanciais.
Mais grave ainda é o contexto: shows financiados com dinheiro público — direta ou indiretamente — costumam ser terreno fértil para práticas nebulosas, especialmente quando envolvem acordos informais, intermediários e ausência de registros contábeis. O suposto não-empenho antes da contratação e o “pagamento” com lotes agravam a suspeita de que a gestão pública serviu de balcão de negócios, não de instrumento de interesse coletivo.
No fim das contas, quem perde é sempre o mesmo: o cidadão, que vê os bens da cidade serem diluídos em negócios privados que não passam pelo crivo da lei, da moralidade e muito menos da transparência.
Enquanto shows iluminam palcos, a gestão pública mergulha na escuridão de práticas que deveriam ter sido extintas há décadas — mas que ainda persistem, alimentadas pela certeza da impunidade e pela arrogância de governantes que se julgam donos do município.
E o Blog do Cleuber Carlos seguirá acompanhando. Porque, diante de tamanhos absurdos, o silêncio seria cúmplice.

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