O publicitário Marcos Valério, preso no mensalão, e o comprovante de pagamento a ele (abaixo). Seu advogado diz que Valério quer fazer delação premiada (Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
Em outra passagem, Corrêa relata o que seria uma interferência direta de Lula na Petrobras. Segundo o ex-deputado, entre 2010 e 2011, ele e seu colega de partido João Pizzolatti foram ao escritório do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, petista histórico e próximo a Lula. Quando chegaram lá, numa tarde durante a semana, encontraram Marcos Valério e um empresário, do qual o delator não se recorda o nome. Greenhalgh, Valério e o empresário queriam que Pedro Corrêa e Pizzolatti os ajudassem a fechar uma operação de compra e venda de petróleo com a área da Petrobras comandada por Paulo Roberto Costa. De acordo com Corrêa, o negócio geraria um lucro alto – e, portanto, o PP resolveu abocanhar uma fatia do dinheiro. Após a conversa, Corrêa e Pizzolatti foram falar com Paulo Roberto Costa, que recusou fechar contrato, porque o empresário não tinha uma boa fama dentro da Petrobras. Alguns meses depois, a operação foi feita. De acordo com o ex-presidente do PP, Lula interferiu para que a transação saísse. A partir da delação, o Ministério Público investigará para onde foram os pixulecos do negócio.
O embrião do esquema do petrolão, segundo Corrêa, era o mensalão. No anexo 2, Pedro Corrêa conta que, em meados de 2004, a Dinamo Distribuidora de Petróleo depositou R$ 1,7 milhão na conta bancária da 2S Participações, do operador Marcos Valério. Quando o repasse veio à tona, a explicação dada pela Dinamo era que a empresa tinha comprado 25 títulos da Eletrobras para quitar dívidas tributárias com o governo federal, operação intermediada por Valério. No entanto, Corrêa afirma em sua proposta de delação que o valor de R$ 1,7 milhão era a devolução a Marcos Valério de um adiantamento de propina paga no mensalão. Em troca, a Dinamo faturava com um contrato com a Petrobras para distribuir 45 milhões de litros de álcool anidro que estariam infectados e seriam redestilados para voltar ao mercado. “O petrolão e o mensalão são a mesma coisa”, afirma o ex-presidente do PP em sua proposta de delação. “Desde 2004, o petrolão financiava o mensalão." A pessoa responsável para pedir à Dinamo que fizesse o depósito na conta da empresa de Marcos Valério foi o ex-assessor do PP João Cláudio Genu – ao lado de José Janene, morto em 2010.
Essa não é a primeira vez que a 2S, de Marcos Valério, famoso operador do mensalão, aparece ligada ao Petrolão. No ano passado, foi encontrado no escritório de Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef, um contrato de uma operação de empréstimo no valor de R$ 6 milhões, firmado entre a 2S Participações e a Expresso Nova Santo André, de Ronan Maria Pinto – empresário que ficou famoso no escândalo de corrupção desvendado à época da morte do prefeito Celso Daniel, de Santo André. De acordo com depoimento de Valério ao Ministério Público, em 2012, Ronan Maria Pinto ameaçou relacionar Lula e os ex-ministros Gilberto Carvalho e José Dirceu com a morte do ex-prefeito de Santo André – e recebeu R$ 6 milhões para ficar calado. Investigadores da Lava Jato apuram se esse dinheiro teve origem num contrato de empréstimo tomado pelo pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente e preso na Lava Jato, com o Banco Schahin. Bumlai assume apenas que tomou o financiamento da instituição financeira a mando do PT. A história já é bem conhecida – e é mais um indício de que o petrolão e o mensalão podem estar umbilicalmente ligados.
De acordo com investigadores que tiveram acesso à proposta de delação de Pedro Corrêa, os relatos são bastante detalhados – e impressionam pela capacidade de memória do ex-parlamentar. Diferentemente de outras colaborações, o ex-presidente do PP não apresenta provas robustas, extratos bancários, mas faz uma verdadeira crônica da política brasileira, apontando irregularidades e falcatruas em diversos períodos da história e em distintos partidos. Há desde líderes de partidos no Congresso a ex-presidentes. Pelo volume de informações, o grupo de trabalho dos procuradores da Lava Jato, em Brasília, gastou quase seis meses para chegar a uma resolução de acordo final. Nos próximos dias, a delação deverá ser, enfim, assinada. Ficou combinado, a princípio, que Corrêa pagaria uma multa de quase R$ 5 milhões – e blindaria seus filhos, entre eles a deputada Aline Corrêa, de qualquer acusação. Nesse acordo, ainda foi negociada a redução de sua pena nas duas condenações – a do Petrolão e a do mensalão. Em 2012, Pedro Corrêa foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no mensalão a sete anos e dois meses de prisão, além de multa de R$ 1,1 milhão, por lavagem de dinheiro e corrupção. No ano passado, o ex-deputado foi sentenciado na Lava Jato a cumprir 20 anos e sete meses atrás das grades, novamente por corrupção e lavagem de dinheiro. Conhecedor da história do mensalão, Pedro Corrêa não quis acabar tendo o mesmo desfecho que Marcos Valério. Resolveu contar tudo o que sabe. E o que sabe pode ser uma nova dinamite a explodir a República – e, em particular, o ex-presidente Lula.
Procurado, o ex-presidente Lula, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que “não comenta supostas delações e repudia o jornalismo feito por vazamentos ilegais”. A defesa de Pedro Corrêa não quis comentar. O advogado Marcelo Leonardo, que representa Marcos Valério na Justiça, disse que não vai comentar, porque não teve acesso ao conteúdo da delação. O criminalista ainda diz que seu cliente está disposto a negociar um acordo de delação com os investigadores da Lava Jato. João Pizzolatti não foi localizado pela reportagem. ÉPOCA deixou recado no escritório do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, mas não obteve retorno.
Revista ÉPOCA
Revista ÉPOCA
Nenhum comentário:
Postar um comentário