Holding ligada à médica Gleycianne França ingressou na Fabermed em 5 de agosto. Dezoito dias depois, a empresa assinou contrato milionário com a Prefeitura de Taquaral de Goiás. Investigação do TCM sobre possível sobreposição de serviços amplia a necessidade de esclarecimentos.
Uma sequência de movimentações empresariais ocorridas entre junho e agosto de 2026 coloca sob atenção a composição societária da Fabermed Soluções em Saúde Ltda., empresa que firmou contrato de R$ 3.119.900,00 com a Prefeitura de Taquaral de Goiás para a prestação de serviços médicos especializados. No centro dessa história aparece a médica e empresária Gleycianne da Silva França, vinculada à JVGF Participações Ltda., holding que ingressou no quadro societário da Fabermed apenas 18 dias antes da assinatura do contrato municipal.
A proximidade entre as datas, por si só, não caracteriza irregularidade. Entretanto, quando examinada ao lado de outras alterações societárias, de contratos públicos milionários e de uma investigação formalmente admitida pelo Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás, a sequência apresenta questões que merecem respostas da empresa, dos seus administradores e da Prefeitura.
A investigação do Blog do Cleuber Carlos identificou que a JVGF Participações foi constituída em 18 de junho de 2026, com capital social cadastrado de R$ 10 mil, tendo Gleycianne França e João Victor de Paula Pereira em seu quadro societário. Poucas semanas depois, em 2 de julho, a holding passou a integrar a Qualifica Consultoria e Gestão Empresarial Ltda., juntamente com a Unisen Holding de Participações. Nessa empresa já figurava Pedro Felipe Xavier Santos, nome que posteriormente também aparece na composição societária da Fabermed.
O movimento seguinte ocorreu em 5 de agosto, quando a JVGF e a Unisen Holding ingressaram no quadro societário da Fabermed, ao lado de outros participantes, entre eles Lucas Nogueira Taveira Adorno. A repetição de pessoas e empresas nas duas estruturas sugere uma reorganização empresarial que ultrapassa uma alteração societária isolada, embora os documentos disponíveis ainda não permitam identificar seu objetivo econômico, os percentuais de participação ou eventual controle comum.
DEZOITO DIAS ENTRE A ALTERAÇÃO SOCIETÁRIA E O CONTRATO MILIONÁRIO
O dado mais expressivo da cronologia está na contratação municipal. Em 23 de agosto de 2026, apenas 18 dias depois da alteração societária, a Fabermed assinou o Contrato de Credenciamento nº 106/2026 com o Fundo Municipal de Saúde de Taquaral, no valor estimado de R$ 3.119.900,00. O instrumento foi publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas em 26 de agosto.
O objeto compreende consultas especializadas, exames diagnósticos e procedimentos cirúrgicos ambulatoriais. A contratação decorreu do Processo Administrativo nº 3867/2026, vinculado ao Chamamento Público nº 03/2026.
A questão que precisa ser esclarecida é anterior à assinatura: quando a Fabermed apresentou sua documentação para participar do credenciamento? A empresa já estava sob a nova composição societária? Quem assinou o pedido de habilitação? A Prefeitura recebeu informações atualizadas sobre seus sócios e administradores?
Essas respostas são essenciais para reconstruir o procedimento administrativo. O credenciamento, modalidade que pode admitir diversos prestadores que atendam às condições estabelecidas, não significa necessariamente uma competição com apenas um vencedor. Por isso, não há base documental para afirmar que a Fabermed tenha derrotado concorrentes ou que a alteração societária tenha influenciado sua habilitação.
O que existe é uma sequência temporal objetiva que justifica a análise dos documentos apresentados pela empresa e dos atos praticados pela administração municipal.
A CONEXÃO COM GLEYCIANNE FRANÇA
Gleycianne aparece nos registros empresariais como integrante e representante da JVGF Participações. Sua ligação com a Fabermed, portanto, ocorre por meio dessa pessoa jurídica, e não deve ser confundida automaticamente com participação direta na administração cotidiana da prestadora de serviços médicos.
A médica já havia sido mencionada em reportagens sobre investigações relacionadas à contratação de serviços de saúde em Goiás. Conforme informações divulgadas pela imprensa, seu nome apareceu em apuração policial sobre suspeitas de simulação de concorrência em processos de seleção de fornecedores envolvendo outras empresas.
A investigação anterior teria examinado declarações apresentadas em 11 procedimentos de seleção. A defesa de Gleycianne negou participação em qualquer combinação destinada a favorecer empresas ou pessoas investigadas.
Em setembro de 2026, a Polícia Federal informou à imprensa que o inquérito ainda aguardava análise e perícia de materiais apreendidos, sem indiciamentos comunicados até aquela data. Não há, nos elementos examinados para esta reportagem, comprovação de condenação criminal ou de que as suspeitas tenham sido judicialmente reconhecidas.
Também foi identificada uma notificação expedida pela Secretaria Estadual de Saúde em março de 2025, no âmbito de tomada de contas especial envolvendo a Fluir Gestão em Saúde, empresa da qual Gleycianne foi apontada como sócia-diretora. O procedimento tratava de questionamento sobre a execução de serviços de coordenação médica em unidade hospitalar estadual.
São episódios distintos, que não podem ser automaticamente associados ao contrato de Taquaral. Entretanto, reforçam a importância de esclarecer a trajetória empresarial e a participação efetiva de cada pessoa nos negócios analisados.
O TCM JÁ INVESTIGA OS CONTRATOS DA SAÚDE DE TAQUARAL
A contratação da Fabermed ganhou relevância adicional após a abertura do Processo nº 07303/2026 no Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás.
Em decisão monocrática assinada em 23 de setembro de 2026, o conselheiro Humberto Aidar admitiu denúncia sobre possível sobreposição de serviços contratados pela Prefeitura.
Além dos R$ 3.119.900,00 destinados à Fabermed, o município havia celebrado o Termo de Colaboração nº 01/2026 com o Instituto Projeto Rondon, no valor de R$ 13.436.664,00, para planejamento, gestão, operação e fortalecimento da rede municipal de atenção básica à saúde.
Os dois instrumentos totalizam R$ 16.556.564,00 em valores contratados.
A denúncia sustenta que determinadas atividades poderiam estar previstas em ambos os ajustes, criando risco de pagamentos duplicados por consultas, exames e procedimentos médicos.
O TCM considerou os elementos apresentados suficientes para admitir a denúncia e determinou o encaminhamento à Secretaria de Controle Externo de Contratações, responsável pela análise técnica e pelo procedimento de seletividade.
É importante ressaltar que a decisão não reconheceu a existência de pagamentos duplicados nem estabeleceu prejuízo aos cofres públicos. O Tribunal delimitou os fatos que deverão ser examinados.
Até o fechamento desta reportagem, não havia sido obtida confirmação documental de decisão definitiva sobre o mérito da denúncia.
A EMPRESA JÁ EXISTIA, MAS PASSOU POR REORGANIZAÇÃO
Outro detalhe merece registro. A Fabermed não surgiu em agosto de 2026. Seu CNPJ, 41.063.390/0001-26, foi constituído em fevereiro de 2021, e a empresa anteriormente utilizou a denominação FMC Procedimentos Médicos Ltda.
Portanto, a investigação não trata da criação de uma empresa poucos dias antes de receber um contrato público, mas da alteração de sua estrutura societária às vésperas da contratação.
A distinção é relevante. Alterações de sócios são operações empresariais legalmente possíveis. Para avaliar suas consequências, é necessário conhecer os instrumentos registrados na Junta Comercial, as participações transferidas, os administradores designados e as datas em que os atos passaram a produzir efeitos.
Também será necessário esclarecer a relação entre a Fabermed e outras empresas com integrantes societários comuns, especialmente a Qualifica Consultoria e a Unisen Holding.
QUEM CONTROLAVA A FABERMED QUANDO O CONTRATO FOI ASSINADO?
Esta é uma das perguntas centrais da investigação.
A presença da JVGF no quadro societário não demonstra, isoladamente, que Gleycianne tenha participado das negociações com Taquaral, assinado documentos ou decidido sobre a execução dos serviços.
Para identificar essas responsabilidades, é indispensável obter o contrato social consolidado da Fabermed, a alteração registrada em agosto e a íntegra do processo administrativo de credenciamento.
Também precisam ser identificados os profissionais disponibilizados à Prefeitura, os serviços efetivamente executados, as notas fiscais emitidas e os pagamentos realizados pelo Fundo Municipal de Saúde.
O valor de R$ 3.119.900,00 representa o montante estimado do contrato, não a comprovação de que a empresa tenha recebido integralmente esses recursos.
A PERGUNTA QUE TAQUARAL PRECISA RESPONDER
A Prefeitura deve esclarecer quando a Fabermed iniciou sua habilitação, quais documentos foram apresentados, quem representava a empresa, como foram definidos os quantitativos e preços dos serviços e quais mecanismos impedem que procedimentos já abrangidos pelo contrato do Instituto Projeto Rondon sejam novamente remunerados.
À Fabermed, à JVGF Participações e aos demais integrantes da estrutura societária cabe esclarecer o propósito da reorganização empresarial de 2026, a distribuição de responsabilidades administrativas e a eventual participação de Gleycianne nas decisões relacionadas à contratação municipal.
A reportagem também considera indispensável assegurar manifestação aos citados antes de qualquer conclusão sobre possíveis irregularidades. Não foi obtida, para esta publicação, resposta atualizada e específica sobre a cronologia societária e o credenciamento de Taquaral.
O QUE OS DOCUMENTOS REVELAM — E O QUE AINDA ESTÁ SEM RESPOSTA
Os registros examinados permitem estabelecer uma sequência: a JVGF foi constituída em junho; ingressou, juntamente com a Unisen, em outra sociedade em julho; passou a integrar a Fabermed em 5 de agosto; e, 18 dias depois, a Fabermed assinou contrato de R$ 3,12 milhões com a Prefeitura de Taquaral.
Também está documentalmente demonstrado que o TCM-GO admitiu uma denúncia sobre possível sobreposição entre esse contrato e outro ajuste milionário da saúde municipal.
O que ainda não está comprovado é a existência de direcionamento contratual, influência indevida dos novos sócios, pagamento duplicado ou participação pessoal de Gleycianne em qualquer irregularidade relacionada a Taquaral.
A investigação do Blog do Cleuber Carlos continuará concentrada nos documentos que podem esclarecer essas questões.
Porque, quando uma empresa passa por alterações societárias e, poucos dias depois, celebra um contrato público milionário, a proximidade das datas não autoriza condenações antecipadas. Mas exige transparência sobre quem participou do negócio, quais critérios foram observados e como o dinheiro público está sendo utilizado.
Afinal, quem controlava efetivamente a Fabermed quando o contrato foi firmado, quem conduziu o credenciamento e quanto dos R$ 3,12 milhões já foi pago pela Prefeitura de Taquaral?
Essas são as respostas que a documentação administrativa e financeira ainda precisa oferecer.
BLOG DO CLEUBER CARLOS — JORNALISMO INVESTIGATIVO
Nota editorial: A matéria preserva a distinção entre fatos documentados, indícios que justificam investigação e suspeitas ainda não comprovadas. A cronologia societária foi baseada nos registros levantados anteriormente; para publicação definitiva, é recomendável anexar a certidão histórica da JUCEG e a íntegra do credenciamento, documentos ainda não examinados nesta etapa. A admissão da denúncia pelo TCM está confirmada na Decisão Monocrática nº 414/2026, de 23 de setembro de 2026.