terça-feira, 27 de outubro de 2026

CIDADE ESBURACADA, SAÚDE EM CRISE E SALÁRIOS ATRASADOS: JERONYMO ASSINOU CONTRATO DE R$ 1,47 MILHÃO PARA CARRO DE SOM E PROPAGANDA

Enquanto São Miguel do Araguaia enfrentava ruas destruídas, trabalhadores sem receber e denúncias de irregularidades nos repasses à Câmara, gestão do prefeito cassado firmou contrato milionário para propaganda volante, locução e cerimonial. Documento foi assinado apenas 21 dias antes da cassação.

São Miguel do Araguaia vive uma contradição administrativa que exige explicações. De um lado, ruas tomadas por buracos, problemas graves na saúde pública, servidores com salários atrasados, denúncias de pagamentos pendentes à organização social responsável por serviços de saúde e repasses inferiores aos devidos à Câmara Municipal. Do outro, um contrato de R$ 1.475.750,50 para propaganda volante, carro de som, locução de eventos e cerimonial.

O contrato nº 206/2026 foi assinado em 5 de outubro, durante a administração de Jeronymo Siqueira, apenas 21 dias antes de sua cassação pela Câmara Municipal, por nove votos a dois.

A beneficiária da contratação é a empresa Cleiton S Mendonça, CNPJ 15.023.719/0001-15, credenciada por meio do Chamamento Público nº 008/2026. O compromisso tem vigência prevista até outubro de 2027.

A pergunta é inevitável: como uma prefeitura que enfrentava dificuldades para cumprir obrigações básicas encontrou justificativa para assumir um compromisso de quase R$ 1,5 milhão com serviços de propaganda e eventos?

O problema das ruas não é apenas reclamação de moradores. Em março, o Ministério Público de Goiás ajuizou ação civil pública contra o município após constatar deterioração generalizada da malha viária, com buracos, valetas, desníveis e até ausência de pavimentação em diferentes localidades.

Na saúde, a situação também provocou mobilização. Em setembro, o Sindsaúde denunciou atrasos salariais de até 90 dias entre trabalhadores da rede pública. Houve assembleias e manifestações de profissionais que continuavam trabalhando sem receber regularmente. As informações sobre pagamentos pendentes à organização social precisam igualmente ser esclarecidas pela administração municipal.

A crise financeira também chegou ao Legislativo. Documentos apresentados no processo de cassação apontaram diferença acumulada de aproximadamente R$ 916 mil nos repasses do duodécimo à Câmara entre janeiro e julho de 2026.

Esses problemas contribuíram para o julgamento político-administrativo que encerrou o mandato de Jeronymo Siqueira em 26 de outubro.

Mas existe outro detalhe que merece atenção.

Levantamento do Blog do Cleuber Carlos identificou que a mesma empresa já havia vencido itens do Pregão nº 20/2023, realizado pela prefeitura, com valores que somavam R$ 281.770 em serviços como propaganda volante, cerimonial e locação de equipamentos.

Agora, o novo contrato alcança quase R$ 1,5 milhão, por meio de credenciamento.

Embora o procedimento esteja previsto na legislação, a prefeitura precisa demonstrar os critérios utilizados, os preços contratados, a necessidade dos serviços e a forma de distribuição das demandas entre eventuais credenciados.

Não se trata de afirmar que todo o dinheiro foi gasto. O valor representa o compromisso contratual registrado, e os pagamentos efetivos ainda precisam ser identificados. Também não há comprovação, até aqui, de superfaturamento ou direcionamento.

A questão central é a inversão aparente de prioridades.

Uma cidade que precisa recuperar ruas, regularizar salários e garantir atendimento de saúde não pode tratar um contrato milionário de propaganda e eventos como assunto secundário, imune à fiscalização.

Antes de gastar com microfones, carros de som e cerimoniais, a administração pública tem o dever de demonstrar que suas decisões atendem efetivamente ao interesse da população.

O novo prefeito, Natanael Martins Coelho, tem diante de si a oportunidade de determinar uma auditoria rigorosa dos contratos herdados, especialmente aqueles firmados nos últimos meses da administração anterior.

É necessário identificar quem autorizou a despesa, quais serviços foram solicitados, quanto foi efetivamente executado, quais pagamentos ocorreram e qual justificativa técnica sustenta o valor contratado.

Jeronymo afirmou, antes da cassação, que enfrentava dívidas milionárias de gestões anteriores e que havia priorizado serviços essenciais. Essa explicação torna ainda mais necessária a transparência sobre a contratação de serviços de comunicação e eventos.

São Miguel do Araguaia precisa de respostas. Porque, enquanto o cidadão enfrenta buracos nas ruas, dificuldades no atendimento de saúde e o funcionalismo cobra salários, um contrato de quase R$ 1,5 milhão para propaganda volante não pode passar sem explicações.

O dinheiro público deve servir primeiro às necessidades da população. E a obrigação de explicar cada contratação é de quem administrou os recursos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário