domingo, 6 de setembro de 2026

ENQUANTO O GELO DERRETE

CRÔNICA | Cleuber Carlos

O gelo derrete.

Parece uma constatação banal. Dessas coisas tão óbvias que a gente nem percebe. Mas talvez exista nela uma das maiores verdades sobre a vida.

Não importa se o gelo está dentro de um copo, sustentando uma taça ou simplesmente esquecido sobre a mesa. Durante algum tempo ele parece sólido, resistente, quase definitivo.

Até desaparecer.

Nós também somos um pouco assim.

Passamos boa parte da vida acreditando que ainda haverá tempo. Tempo para viajar. Para procurar alguém. Para reunir a família. Para abrir aquele vinho guardado esperando uma ocasião especial. Tempo para dizer “eu te amo”, “estou com saudade”, “me perdoe” ou simplesmente “fica mais um pouco”.

E assim vamos adiando a vida enquanto tentamos organizar a própria vida.

Esperamos o momento certo. O dinheiro sobrar. O trabalho diminuir. Os problemas acabarem. A situação ficar perfeita.

Só esquecemos de combinar tudo isso com o relógio.

Porque ele continua andando.

Enquanto esperamos, os filhos crescem. Os pais envelhecem. Os amigos seguem seus caminhos. Alguns amores chegam, outros vão embora. Pessoas que imaginávamos eternas tornam-se lembranças.

E nós também mudamos.

Talvez seja por isso que os melhores momentos quase nunca tenham hora marcada.

São aquela conversa que começou sem assunto e atravessou a madrugada. O almoço simples que virou uma tarde inteira. A gargalhada inesperada. O café sem pressa. A música tocando enquanto ninguém prestava atenção. O abraço que durou alguns segundos além do necessário.

A felicidade tem dessas coisas.

Muitas vezes entra pela porta dos fundos enquanto ficamos esperando que ela toque a campainha da frente.

Durante anos imaginamos que seremos felizes quando conquistarmos alguma coisa: quando tivermos mais dinheiro, mais segurança, mais tempo, mais certezas.

Até descobrirmos que talvez felicidade seja muito menos sobre conquistar e muito mais sobre perceber.

Perceber enquanto ainda está acontecendo.

Então abra o vinho.

Faça a viagem possível, mesmo que não seja a viagem perfeita. Sente-se à mesa com quem importa. Telefone sem precisar de motivo. Diga o que sente enquanto ainda existe alguém para ouvir. Peça desculpas. Perdoe quando puder. Ria alto. Abrace demoradamente.

Não espere uma ocasião especial.

A ocasião especial é estar aqui.

Porque um dia aquela cadeira poderá estar vazia. Aquela voz poderá existir apenas na memória. E aquela tarde absolutamente comum, que parecia não ter importância nenhuma, poderá ser justamente o momento que você daria tudo para viver outra vez.

O gelo derrete porque o tempo não pede licença.

Nós também estamos passando por ele, silenciosamente, todos os dias.

Mas existe uma diferença entre nós e o gelo.

O gelo simplesmente derrete.

Nós podemos escolher viver antes que o tempo nos transforme em lembrança.


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