
A comparação é contundente: para cada R$ 1,00 de sobra líquida registrada pela Complem em 2025, aproximadamente R$ 2,76 foram gastos somente com juros de empréstimos.
Os números constam do Relatório e Parecer Técnico Econômico-Financeiro referente ao exercício de 2025 e colocam o peso do endividamento bancário no centro da discussão sobre as contas da cooperativa.
A Complem alcançou faturamento bruto de R$ 1,007 bilhão, crescimento de 19,72% sobre 2024. Apesar da receita bilionária, encerrou o exercício com R$ 12,19 milhões em sobras líquidas antes das destinações.
Do outro lado da conta, apenas os juros dos empréstimos atingiram R$ 33,67 milhões. Considerando todas as despesas financeiras, o montante chegou a R$ 44,93 milhões.
O próprio parecer reconhece que a estrutura do passivo exige atenção. Dos R$ 322,13 milhões em obrigações de curto prazo, R$ 187,07 milhões correspondem a empréstimos e financiamentos bancários.
A recomendação para 2026 é explícita: alongar o passivo bancário, transferindo parcelas desses R$ 187 milhões para linhas de longo prazo, justamente para reduzir despesas com juros e, nas palavras do documento, “pressões de liquidez imediata”.
Outro dado ajuda a explicar a dependência do crédito. A Complem leva, em média, 90 dias para receber, mantém produtos em estoque por 54 dias e paga fornecedores em 47 dias. O resultado é um ciclo de caixa de 97 dias, classificado no relatório como “gargalo operacional” e financiado por dívida bancária de curto prazo.
A cooperativa possui ainda R$ 253,18 milhões em contas a receber e R$ 130,58 milhões em estoques. Quando os estoques são retirados do cálculo, a liquidez, apresentada em 1,48, cai para 1,08.
Há mais um ponto que merece esclarecimento. O parecer informa que o resultado líquido foi complementado por R$ 50,79 milhões em créditos e compensações fiscais, relacionados a PIS/Cofins e ao incentivo ProGoiás. O impacto efetivo desses créditos na formação das sobras precisa ser detalhado para que se possa dimensionar o desempenho exclusivamente operacional.
O relatório conclui que a Complem apresenta situação econômico-financeira sólida e recomenda a aprovação das contas. Isso não elimina, porém, a questão central revelada pelos próprios números:
uma cooperativa que faturou mais de R$ 1 bilhão terminou 2025 pagando R$ 33,67 milhões apenas em juros — quase três vezes os R$ 12,19 milhões que registrou em sobras líquidas.
É uma conta que merece ser explicada aos cooperados.
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