Em meio à comoção que ainda envolve a tragédia de Itumbiara, o que se vê nas redes sociais é uma avalanche de versões fabricadas, declarações inventadas e narrativas distorcidas. O caso, que por si só já carrega dor suficiente, passou a ser explorado por perfis que transformam luto em palco e tragédia em espetáculo digital.
Vamos aos fatos — porque jornalismo sério não trabalha com suposição nem com corrente de WhatsApp.
É falso que o prefeito Dione Araújo tenha dado entrevista, feito pronunciamento público ou declarado qualquer posicionamento oficial sobre o mérito do caso. O que houve foi apenas uma manifestação em seu próprio Instagram, limitada a agradecimento pelo apoio recebido. Qualquer narrativa além disso é construção artificial.
Também é falso que Sarah tenha concedido declaração pública sobre os fatos. É falso que Jonathan tenha se pronunciado. É igualmente falso que a esposa de Jonathan tenha falado a respeito. Não há registros oficiais, entrevistas ou falas públicas confirmadas dessas pessoas. O que circula são montagens, áudios editados e textos atribuídos sem qualquer comprovação.
Mais grave ainda é a tentativa de reescrever o que já foi confirmado pelas autoridades.
A Polícia Civil do Estado de Goiás decretou sigilo na investigação. E o sigilo tem fundamento jurídico: o caso envolve crianças e envolve crime no âmbito familiar. O Estatuto da Criança e do Adolescente impõe proteção absoluta à identidade e às circunstâncias que possam expor vítimas menores. Sigilo, portanto, não é ocultação — é dever legal.
Mas sigilo não significa ausência de esclarecimento.
Mesmo sob segredo de justiça, a Polícia Civil já confirmou pontos objetivos e técnicos:
– A arma utilizada no crime.
– A autoria do crime.
– A aquisição de combustível antes dos fatos.
– O posto onde o combustível foi comprado.
– O envio prévio de imagens aos familiares.
– A existência de carta escrita pelo próprio autor antes da execução dos atos.
E há um dado que desmonta de vez a tese conspiratória: os vídeos que circulam não foram “hackeados”, nem “fabricados pela polícia”, nem “manipulados por terceiros”. Eles foram enviados pelo próprio autor a familiares antes da consumação dos crimes. E, segundo as informações apuradas, foram esses próprios parentes que repassaram o material, o que explica o vazamento.
Portanto, a versão oficial não deixa margem para delírio coletivo: não há dúvida quanto à autoria. Não existe essa narrativa fantasiosa de que “não foi Tales”. Essa hipótese simplesmente não encontra respaldo técnico nas informações confirmadas pelas autoridades.
Espalhar que outra pessoa teria cometido o crime sem qualquer base probatória não é liberdade de expressão — é irresponsabilidade.
O que está em jogo não é disputa política, não é narrativa ideológica, não é torcida organizada. É uma investigação criminal séria, conduzida sob sigilo legal, com confirmação de autoria, materialidade e sequência de fatos.
Inventar declarações que nunca foram dadas, criar teorias paralelas sem prova e atribuir falas a quem permaneceu em silêncio não ajuda ninguém. Apenas aumenta o sofrimento das famílias e compromete a seriedade do debate público.
A verdade pode até ser desconfortável. Mas ela não precisa de efeitos especiais.
Ela precisa de responsabilidade.
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